Conhecem o vinho kosher?

Conhecem o vinho kosher?

por Lucia Grimaldi*

Olá, internautas amantes do vinho! Espero que estejam todos com saúde!

Sabemos que o vinho exerce um papel muito importante nas mais diversas culturas, particularmente em épocas de celebrações religiosas, como a Páscoa para os cristãos. Inclusive, aqui na coluna Saúde! vocês poderão encontrar dois artigos meus bem legais com dicas de harmonização para esta época. Clique aqui e também aqui. E na comunidade judaica não seria diferente: o vinho tem um papel simbólico importantíssimo nas comemorações, como o Rosh Hashaná (Ano Novo) e o Pessach, que é a “Páscoa” judaica. Pessach (palavra hebraica que significa “passagem”), celebrada no período de 27 de março a 4 de abril de 2021, relembra o Êxodo, que foi a libertação do povo hebreu da escravidão no Egito. Entretanto, para fazer parte destas celebrações judaicas, o vinho precisa ser kosher. Por isso, trago um vinho espumante e um vinho tranquilo, ambos feitos pelo método kosher. Vocês conhecem?

Iniciamos pelo espumante Lídio Carraro Mahut Kosher Rosé Brut, elaborado apenas com uvas da casta Pinot Noir, na cidade de Encruzilhada do Sul (RS), pela vinícola Lidio Carraro em parceria com a 18k Wine, uma grife de vinhos e bebidas especializada na produção de vinhos certificados kosher.

Espumante Lidio Carraro Mahut Kosher Rosé Brut, na www.wine.com.br (fotos Lucia Grimaldi)

Este é um espumante brut, o que significa que tem uma quantidade de açúcar residual muito pequena, praticamente imperceptível (0 a 12 g por litro). Foi utilizado o método charmat, no qual a primeira fermentação ocorre em tanques de aço inox e a segunda, que originará o perlage (as famosas “bolhinhas” do espumante), é feita em um grande tanque selado, capaz de reter o gás carbônico produzido durante a fermentação e dissolvê-lo no vinho. Este método é usado quando o vinicultor deseja um espumante com estilo mais fresco e frutado.

De coloração salmão intensa, apresentou aromas e sabores de frutas vermelhas frescas, como morango, cereja e framboesa, notas florais e acidez muito equilibrada. Um espumante elegante, com estrutura em boca, graças ao contato com as leveduras durante a segunda fermentação. Até aí, nenhuma surpresa…

Detalhes do rótulo do espumante Mahut, que significa “essência” em hebraico
Acima, palavra escrita em hebraico e que significa “vida”

Agora vamos ao motivo de sua escolha para este artigo: sua elaboração seguiu o método kosher. Em outras palavras: toda a sua produção obedeceu aos rigorosos preceitos judaicos, desde a vinha até o engarrafamento. A palavra kosher (também escrita kasher e casher) é um termo hebraico que significa aquilo que é “apropriado” ou “adequado para comer”. Alimentos e bebidas kosher obedecem às normas dietéticas judaicas agrupadas na “Kashrut” e que estão presentes na Torá, o livro sagrado do povo judeu.

A produção de um vinho kosher — desde a colheita, passando pela vinificação e envelhecimento, até o engarrafamento — deve ser realizada apenas por judeus e supervisionada por rabinos. As uvas utilizadas devem ser colhidas de videiras com mais de quatro anos de idade (nunca menos que três anos), e os vinhedos devem repousar a cada sete anos: é o ano sabático, no qual não há vindima. Além disso, todos os insumos utilizados na vinificação devem ser igualmente kosher, não sendo permitida a seleção artificial de leveduras. Cabe ressaltar que outros profissionais da vinícola que não sejam judeus não podem ter contato físico com o vinho kosher até o seu engarrafamento.

Agora, vamos viajar com o saca-rolha: partimos da cidade de Encruzilhada do Sul, no Rio Grande do Sul, no Brasil…
…e cruzamos o Oceano Atlântico e o Mar Mediterrâneo para chegarmos às Colinas de Golã, região Norte de Israel

A Golan Heights Winery é uma importante representante vitivinícola de Israel, fundada em 1983, que se estende desde as proximidades do mar da Galileia aos sopés do monte Hermon (em hebraico, “monte sagrado”, daí o nome do vinho que iremos degustar). As temperaturas mais frescas, a variedade de solos, que vão desde argila-calcário até vulcânico e as variações de altitude, entre 400 e 1.200 metros acima do nível médio do mar, são fatores muito propícios a uma viticultura diversificada.

Estrada que corta as Colinas de Golã (foto Jim Black/Pixabay)
A entrada da vinícola israelense (foto Claudio Schapochnik)

O vinho Mount Hermon Red é um blend tinto elegante e frutado, elaborado segundo o método kosher pela Golan Heights Winery, com as cinco castas tintas clássicas da região francesa de Bordeaux (Cabernet Sauvignon, Merlot, Malbec, Cabernet Franc e Petit Verdot) cultivadas na fria região montanhosa de Golã.

Detalhe do vinho Mount Hermon Red, safra 2018, na www.evino.com.br

O vinho israelense, de uma belíssima cor rubi brilhante, de intensidade média, mostrou aromas e sabores bem definidos de frutas vermelhas, como pitanga e cereja, e frutas pretas maduras, como ameixa e amora, com toques apimentados e mentolados.

O Mount Hermon Red na taça…
…com sabores de frutas vermelhas e pretas

É um vinho que não passou por estágio em madeira. Fresco, com acidez e taninos macios muito bem equilibrados e final longo, foi uma deliciosa experiência. É realmente um vinho muito agradável de degustar e fácil de harmonizar.

O vinhos Yarden (que significa “Jordão”, em hebraico) pertencem à linha premium da Golan Heights Winery. São feitos pelo método kosher e trazem sempre a figura de uma antiga lâmpada a óleo.

Acima, detalhe da antiga lâmpada de óleo no rótulo e, abaixo, na rolha do Mount Hermon Red

Geralmente, o método kosher não altera o sabor final do vinho, nem dos alimentos. Sabemos que um produto é kosher graças a uma indicação feita no rótulo por órgãos oficiais de certificação existentes no mundo inteiro, cerca de 400, sempre baseados nas leis dietéticas judaicas, como o BDK do Brasil.

No contrarrótulo do espumante Mahut, abaixo à direita, está o selo de certificação kosher da BDK do Brasil. Nota-se também a indicação no canto superior direito “Mevushal – Kosher for Passover”, o que significa que o espumante passou por um rápido processo de pasteurização
Já no contrarrótulo do vinho Mount Hermon Red, o selo com a letra K indica que o produto é kosher

Por fim, desejo que todos tenhamos um abençoado Pessach! E uma abençoada Páscoa! Mais do que nunca, é tempo de brindarmos à vida:

Le chaim! — expressão hebraica que significa “à vida”

*Lucia Grimaldi, colunista de enologia do Que Gostoso!, é graduada e pós-graduada em fonoaudiologia e direito e possui a certificação internacional Wine & Spirit Education Trust (WSET) nível 2. Contatos: grimaldipervino@gmail.com e o @grimaldipervino

2 comentários sobre “Conhecem o vinho kosher?

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