Karlovy Vary (Tchéquia): a terra do licor Becherovka

Karlovy Vary (Tchéquia): a terra do licor Becherovka

por Claudio Schapochnik_Karlovy Vary_Boêmia Ocidental/TCHÉQUIA

Além dos bolachões de waffer, os oplatky, a linda e aconchegante Karlovy Vary, na região da Boêmia Ocidental, na Tchéquia – o segundo nome oficial da República Tcheca, que “convive” também oficialmente com a primeira denominação –, tem outro ícone no tema da alimentação. Desta vez é uma bebida – o famoso licor de ervas local chamado Becherovka (fala-se “berrerovka”) que, até 2008 quando visitei a cidade, jamais tinha ouvido falar. Quando for possível novamente visitar o país da Europa Oriental, após a pandemia de Covid-19 acabar, é um programão passar no mínimo dois dias por lá. Antes de abordar a bebida, vamos passear um pouco pelo encantador município tcheco.

No alto detalhe do prédio de 1867, onde fica o museu da bebida tcheca, e, acima, o brasão de Karlovy Vary em edifício na cidade (fotos Claudio Schapochnik/Que Gostoso!)
Pracinha em Karlovy Vary
A garrafa do famoso licor da cidade (foto reprodução/internet)

Conheci a cidade na companhia do Jan Kummer, meu amigão-irmão alemão e também jornalista. Eu e ele, que estava com o seu carro – na época um Octavia, da marca tcheca Škoda que pertence ao Grupo Volkswagen –, estávamos vindo da Alemanha. Começamos na capital do Estado da Saxônia, Dresden, onde ele vive, depois para a região serrana saxônica de Erzgebirge, que faz fronteira com a Tchéquia e, de lá, para Karlovy Vary.

Logo após nos instalarmos num hotel fora da área turística, eu e o Jan pegamos um ônibus e fomos passear pelo centro. Antes uma observação interessante. No café da manhã no hotel tomate e pepino crus eram presença diária. Isso é, ainda, um traço cultural da Tchéquia e de vários, se não todos, os países do Leste Europeu: café da manhã tem de ter esses vegetais e ponto final. Para mim foi uma agradável surpresa, pois adoro ambos.

O centro é lindo, limpo, cheio de jardins floridos e lotada de turistas – sobretudo de russos, com suas roupas de gosto bem duvidoso e cheios de sacolas de compras. A cidade é um balneário bastante famoso há séculos. As águas termais, com propriedades medicinais, teriam sido descobertas pelo fundador da cidade – o rei tcheco e imperador do Sacro Império Romano Germânico, Carlos 4° (1316-1378), cujo reinado teve início em 1355 e durou até a sua morte. Ele a fundou em 1370.

Turistas aproveitam o sol no centro
Suvenir típico de Karlovy Vary: canequinha para beber a água das fontes
Knedlík com Guláš: prato típico e delicioso tcheco –respectivamente pão sem casca cozido no vapor e carne de porco, com molho grosso temperado e um pouco de creme azedo; muito bom

BANHO NA PISCINA
Com o passar dos séculos, a cidade foi ganhando notoriedade por causa das águas termais. Pudera… Escritores famosos como Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832) e Nikolai Gogol (1809-1852), compositores do porte de Ludwig van Beethoven (1770-1827) e Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) e médicos como Sigmund Freud (1856-1939), por exemplo, frequentaram a cidade por causa, sobretudo, dessas fontes.

Essas fontes de água mineral, com propriedades benéficas à saúde humana, também alimentam piscinas de hotéis, como as do grandão e famoso Spa Hotel Thermal, bem no centro. Não precisa ser hóspede para nadar na maior piscina, que é externa. Eu e o Jan fomos lá, pagamos uma taxa, que inclui lockers e vestiário com banheiro e ducha, e desfrutamos de um mergulho muito bom. Assim como nós havia muitos turistas não hóspedes por lá. Super recomendo essa atividade. Não é cara e seu corpo agradece.

A piscina externa do Spa Hotel Thermal: muito gostosa
Fachada do Spa Hotel Thermal (foto reprodução/site)
Propaganda do museu no prédio da Becherovka

Outra atividade na cidade é passeio de cerca de dois quilômetros, apenas para pedestres em muitos trechos, que acompanha o curso do rio Teplá e também nas adjacências. No caminho dá para visitar e beber as águas medicinais de 12 fontes em três colunatas – conjunto de colunas enfileiradas de forma simétrica – chamadas Mlýnská (acento no “y”!), Tržní (acento no “z”!) e Sadova. Sim, o tcheco é um idioma super difícil e muito diferente…

Também dá para constatar que o município é bem verde. Não apenas pelas praças e pelos jardins, mas pelas montanhas verdinhas que o cercam. No caminho dá para observar ainda os estilos arquitetônicos dos hotéis e do comércio. Uma beleza!

Esse passeio que segue o rio Teplá termina em frente ao famoso Grand Hotel Pupp, fundado em 1701. Além de hospedar muita gente famosa, entre artistas, cientistas, estadistas e cineastas, o estabelecimento de luxo foi cenário de muitos filmes como o 007 – Cassino Royale (direção de Martin Campbell, 2006).

Viajamos a Karlovy Vary no mês de julho, e o tempo estava ótimo: sol, céu azul e temperatura amena. Apesar de ser verão (Hemisfério Norte), acho que as montanhas bem verdes que cercam a cidade desenvolveram um microclima, que produz estas temperaturas não altas. Perfeito para andar. Segundo o Czech Tourism, órgão oficial de turismo do país, viajei então na melhor época do ano – que vai de abril a outubro.

Estátua do filósofo e sociólogo alemão Karl Marx (1818-1883) em praça de Karlovy Vary
Eu junto ao rio Teplá, que corta a cidade tcheca (foto Jan Kummer)

HISTÓRIA
Antes de entrar na bebida típica da cidade, tenho de abordar, resumidamente, um aspecto importante da história e da geografia locais. Fundamental para entender a trajetória da família que criou o licor, os Becher.

No século 12, o território da atual Boêmia tcheca começou a receber agricultores dos então reinos germânicos – a Alemanha como a conhecemos só nasceu em 1871. Esse movimento de pessoas de idioma e cultura alemãs se deu ainda para outros territórios – no que é hoje a Tchéquia, a Polônia, a Eslováquia, a Romênia, entre outras nações – e recebeu o nome de ostsiedlung. A palavra significa “povoamento em direção Leste”, na tradução do alemão.

Em algum momento a população de origem alemã, já nascida em Karlovy Vary, passou a chamá-la de Karlsbad. Esse período de cidadãos tchecos de cultura e idioma alemães em terras tchecas durou até o final da Segunda Guerra. Em 1945, eles foram expulsos da então Tchecoslováquia. Este país foi criado com a união de tchecos e eslovacos após o final da Primeira Guerra Mundial e a dissolução do Império Áustro-Húngaro, em 1918. Durou entre este ano e 1939 e de 1945 a 1992 – quando a Revolução de Veludo trouxe a independência para a República Tcheca e Eslováquia.

Ponto-de-venda do famoso licor
Mulher serve-se de água de uma das fontes da cidade
Outra praça da arborizada cidade tcheca

COMPOSIÇÃO DA BEBIDA
Posto isso, as pessoas por trás da Becherovka eram parte dessa população de origem e cultura alemãs que viveram naquele território desde o século 12.

Tudo começou com o empresário Josef Vitus Becher (1769-1840), expert na produção de licores. Dois anos antes de morrer, a empresa foi assumida por Johann (Jan) Nepomuk Becher. A família Becher ficou à frente do negócio até 1945. Após a Segunda Guerra Mundial, a empresa foi nacionalizada e, em 1997, foi privatizada. Naquela ocasião a gigante francesa da área de bebidas Pernod Ricard comprou 35% das ações, adquirindo outros 59% em 2001. Tempos depois comprou o restante do capital ficando 100% proprietária.

O licor, que começou a ser fabricado em 1807, resulta de uma mistura de 32 ervas e especiarias, com 38% de teor alcoólico. Além das plantas, recebe a pura água da região e açúcar. Tudo o mais é super segredo bem guardado.

Chamada originalmente de English Bitter, o licor tinha uso medicinal, sobretudo para curar doenças do estômago.

Pode ser tomado frio, à temperatura ambiente e como ingrediente de coquetéis. Para conhecê-los e saber a receita, clique aqui. Um dos mais populares recebe o nome de Beton, que combina Becherovka com água tônica.

Exemplos de coquetéis feitos com o Becherovka (fotos reprodução/site)

MUSEU DO LICOR
O museu da Becherovka fica no centro da cidade – por causa da pandemia do coronavírus, está fechado temporariamente. Está localizado no térreo do prédio histórico chamado Steinberky, erguido por Jan Becher em 1867 e serviu como fábrica original por mais de um século.

Visitei o museu, bastante abrangente sobre a bebida que ajudou a promover a cidade em nível mundial. A história é contada por meio de cartazes, garrafas, fotografias, anúncios etc. Estava cheio de turistas. Acho que fiquei por lá uns 40 minutos.

Recordo que ao final, na lojinha – sim, lá também há uma lojinha antes da saída –, comprei uma garrafa do licor para levar para o Brasil.

Para quem quer provar a bebida no local e ter a companhia de um guia oficial da casa, há quatro tipos de tours realizados em tcheco, inglês, alemão e russo, que incluem a degustação.

Na zdraví! (saúde, em tcheco)

Jan e eu no almoço em um restaurante: afinal, Tchéquia também tem ótimas cervejas

SERVIÇO:
www.destinotchequia.com

2 comentários sobre “Karlovy Vary (Tchéquia): a terra do licor Becherovka

    1. Olá, Helena! Como vai? Obrigado pelo seu comentário. Sobre a descrição do prato, por favor, qual é a sua descrição correta? No aguardo. Obrigado pela leitura.

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