Memória e culinária: o haddock feito pela minha mãe

Memória e culinária: o haddock feito pela minha mãe

por Claudio Schapochnik

Ah, o haddock (ou hadoque)… Ainda me lembro do agradável cheiro, do gosto maravilhoso e da linda cor alaranjada deste peixe numa receita feita pela minha querida e saudosa mãe, Eva (1939-2018), décadas atrás, mais especificamente no final dos anos 1970. Sim, ainda era criança — hoje tenho 51 anos — e este prato me marcou muito não apenas pelos adjetivos escritos acima, mas pelo fato de o haddock ter sido cozido no leite. Devo ter achado um fato muito interessante, pois me marcou mesmo.

A ideia de escrever este texto surgiu do fato de ter achado na casa de meus maravilhosos pais — meu querido e saudoso pai também já morreu, Edison (1931-2014) — um folheto retangular com duas dobras e duas cores (azul e vermelho) da Peixaria Pinheiros. O estabelecimento ficava no Shopping Center Iguatemi, no bairro de Pinheiros, na Zona Oeste de São Paulo. Mais especificamente voltado à rua Rua Angelina Maffei Vita, que une a Avenida Brigadeiro Faria Lima à Rua Hungria e à Marginal do Rio Pinheiros.

No alto haddock defumado (foto/reprodução http://www.islandsfisk.se) e, acima, a capa do folheto da Peixaria Pinheiros (foto Claudio Schapochnik/Que Gostoso!)
Meus amados pais, Eva e Edison, em foto de 2006, quando meu pai fez 75 anos (foto/arquivo familiar)

Minha família frequentava esta região por causa do clube judaico A Hebraica, do qual éramos sócios, e por causa, em menor escala, do Shopping Iguatemi — um dos poucos centros de compras na cidade àquela época. No final dos anos 1970, a entrada da Hebraica era pela rua Ibiapinópolis. Aos finais de semana, me recordo, a dona Malka Levi e seu marido ficavam lá junto a um carro azul vendendo seus maravilhosos sanduíches de falafel.

O impresso da Peixaria Pinheiros tinha seis receitas de haddock, sendo cinco elaboradas com leite, sempre de vaca: Haddock ao creme, Haddock a L´anglaise, Haddock Beure Fondu, Haddock a La Creme com Champignon e Haddock a meunière. A única sem leite era o Haddock Paradise, assado. O peixe (Melanogrammus aeglefinus) é da família do bacalhau e pescado nos oceanos Atlântico Norte e Ártico. Integra a dieta de países como os da Escandinávia, Países Baixos, Alemanha etc.

Acima e embaixo, as receitas de haddock do folheto da Peixaria Pinheiros (fotos/Claudio Schapochnik)

Não posso precisar se a receita que a mamãe fez deste peixe em casa foi uma destas acima. As chances são grandes. Mamãe amava ler tudo o que se referia a receitas. Incrível: ela lia e guardava tudo — folhetos, rótulos, escrevia no papel que estivesse à mão, recortava pedaços de jornal ou revista e comprava livros. Por outro lado, muita coisa ela passava para os seus cadernos de receita com sua bonita letra. Outras vezes, ela executava uma receita de cor. Outras vezes também, telefonava para um familiar ou uma amiga para tirar uma dúvida. Adorava e assistia vários programas de culinária na televisão, sobretudo no período da tarde.

Nossa… Quantas vezes vi com ela, em casa, no bairro da Casa Verde na Zona Norte da cidade, o programa da culinarista Ofélia Ramos Anunciato (1924-1998), na TV Bandeirantes, que se chamava Cozinha Maravilhosa de Ofélia. A Evinha adorava e anotava as receitas com atenção, ainda que depois comprou vários livros da culinarista — nascida em Itatiba e radicada, desde pequena, em Santos, ambas cidades paulistas. Ela ficou ao todo 35 anos ensinando cozinhar na televisão.

Capa de um dos livros da culinarista (foto/internet)

O haddock da Eva foi servido seguramente num domingo — geralmente o dia em que ela caprichava mais no cardápio. Caprichava mais, porque a comida dela já era caprichada naturalmente. Mamãe cozinha muito, mas muito bem, desde o trivial até um prato como o haddock.

Domingo todos almoçavam em casa. Todos quem? Meus pais, meus irmãos (Nelson, Marcelo e Arnaldo) e eu, o caçulinha da casa — nascido nove, oito e sete anos, respectivamente, depois dos brothers. Algumas vezes havia outros familiares à mesa também. Era uma fartura: havia aperitivos (por exemplo, a torrada feita de pão amanhecido coberta de creme de espinafre com uma rodela de ovo cozido, feita no forno; um arraso de bom), uma salada enorme, o prato principal com acompanhamentos, sobremesa, frutas e o café pra fechar o banquete. Não raro, começava às 13h, 13h30 e terminava perto das 15h, às vezes até mais tarde. Schapochniks sempre comeram bem, muito e devagar.

Meu irmão mais velho, Nelson, e minha mãe no jantar de celebração do Ano Novo judaico, anos atrás, na casa de meus pais; à direita, a travessa de guefilte fish (bolinhos de peixe, geralmente carpa), comido tradicionalmente nesta época, que ela fez — melhor guefilte fish que comi na minha vida (foto/arquivo familiar)

Como escrevi no início deste texto, lembro da mamãe colocando o pedaço de haddock na panela com leite. Realmente fiquei impressionado, intrigado. Pra mim, até então, peixe era cozido na água.

Quando ela colocou o prato na mesa, hummm… Que maravilha. Não estou certo, mas acho que serviu com batatas cozidas. Estava bom pra caramba, sensacional.

Depois deste almoço, comi mais uma ou duas vezes o haddock, mas nenhuma igual ao que a mamãe fez.

Eu entre meus queridos pais anos atrás, na casa deles

Para você que quer ler melhor e fazer as receitas da Peixaria Pinheiros, clique com o botão direito do mouse em cima das fotos, que vão abrir em uma nova página e ficar maiores, mais legíveis. Claro, se lido no computador. No celular, fica muito mais fácil.

A Peixaria Pinheiros fechou, e o local foi ocupado por outra loja. O haddock continua um peixe muito nobre e caro. Na Peixaria Nossa Senhora de Fátima, também em Pinheiros, por exemplo, o haddock importado (defumado) sai por R$ 209 o quilo — vi hoje no site do estabelecimento.

Texto alterado em 13/3/2021, às 23h37.

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