por Claudio Schapochnik*
Dá pra comer (boa) comida israelense em São Paulo? Claro que sim! Com oferta bem pequena, já comi em um restaurante no Bom Retiro, bairro da região central da cidade, e pedi em casa do catering de um chef. Em comum entre esses dois lugares é que a receita veio de Israel e a comida preparada por israelenses que escolheram o Brasil pra viver. Tudo excelente, de qualidade. Recentemente provei comida israelense igualmente excelente, mas com alguns pontos diferentes. Trata-se do kit Experiência Homusiá do Sabores de Israel, de Shlomi Asaf, que nasceu em Ramat Gan mas foi criado em Rishon Le Zion — ambas cidades próximas de Tel Aviv, no centro do país —, 46 anos e que vive na capital paulista desde 2008. Ele faz e entrega de fato o que propõe: uma verdadeira experiência onde, sim, o paladar de um pacote de delícias (ele vende dessa forma) é a estrela, mas a audição e a visão presentes são também coadjuvantes de peso.


Conheci há alguns anos o Shlomi, que pode ser traduzido do hebraico como o diminutivo de Salomão (Salomãozinho), por meio do ótimo trabalho dele no site que criou aqui em São Paulo — o super completo e didático Sabores de Israel, no ar desde 2013. Antes de entrar de cabeça na área da Gastronomia, fato que se deu aqui no Brasil, ele trabalhou por mais de 20 anos na área de Tecnologia em Israel e por aqui.
Procurava receitas de falafel na internet e entre os primeiros lugares, se não o primeiro, na tela do Google aparecia o Sabores de Israel (no final do texto, explico mais detalhadamente sobre o site e como ficaram meus falafel e homus).
“Queria melhorar o conhecimento das pessoas quanto à comida do meu país feita aqui e uni minhas duas paixões: a cozinha e a tecnologia”, explicou Shlomi ao QUE GOSTOSO! em um entrevista feita por Whats App. Ele fala bem português, com sotaque israelense carregado e, quando não sabia uma palavra ou expressão, me dizia em inglês ou hebraico.
“Naquele tempo tive uma grande audiência, com mais de 70 mil páginas vistas por mês, com 20% dos usuários voltando ao site para dar seu feedback”, recordou o israelense, que aprendeu aqui a gostar de arroz com feijão “mas não todo dia”, frisou ele.


“Naquela época as receitas publicadas não eram boas e, por isso, quis ajudar as pessoas. Sempre digo ao meu público também o que não fazer”, emendou Shlomi, cujo pai e cuja mãe são israelenses. Ela nasceu na Alemanha, mas veio bebê com seus pais para Israel.
Foi com seu pai, que nasceu no primeiro ano de existência do Estado de Israel (1948), que surgiu o interesse pela culinária desde a tenra idade. “Ele sempre cozinhou em casa”, lembrou Shlomi. A vocação para o empreendedorismo gastronômico iniciou junto com a paixão pela cozinha.
BRASIL E OS PRIMEIRO PASSOS NA COZINHA
Shlomi Asaf mudou-se de Israel para o Brasil por causa da sua esposa. “Conheci ela antes de vir para São Paulo e sabia que, se fosse para o Brasil, ficaria aí. Gosto bastante daqui e estou muito, muito feliz.” E já se passaram 13 anos…
“Ninguém sabe inglês nas ruas e, quando precisava de ajuda, vi que a maioria absoluta das pessoas tentava bastante me auxiliar”, lembrou Shlomi nos primeiros tempos no Brasil. Por aqui ele destacou que começou uma nova paixão: as carnes das churrascarias estilo rodízio.
Em paralelo ao site Sabores de Israel e o trabalho com tecnologia, o israelense fez parte, por um curto período, do curso de formação de auxiliar de cozinha dedicado a jovens da comunidade de Paraisópolis, na Zona Sul de São Paulo, promovido pelo Hospital Israelita Albert Einstein. “Fiz duas aulas e depois pararam de me chamar, foi bem legal ter participado.”

Em 2014, Shlomi participou da estreia do Master Chef Brasil. Deste programa, ele não guarda boas recordações. “Fui o primeiro eliminado do primeiro programa exibido no Brasil! Eu me senti muito mal, pois foi bem difícil”, lembrou. No entanto, ele ponderou dizendo que “abriu portas e criou um networking”.
Após pouco mais de 20 anos de trabalho com tecnologia, o cozinheiro resolveu abandonar a antiga profissão e mergulhar de cabeça nas artes culinárias. “Tive experiência com restaurantes, mas agora chegou a hora: vou abrir o meu negócio”, recordou.


A EXPERIÊNCIA HOMUSIÁ
Shlomi fez muitos testes de viabilidade e três ou quatro de cardápio até chegar ao que vende hoje como Experiência Homusiá. Homusiá é uma palavra (no singular) em hebraico para um lugar que serve apenas homus — com a tahini, os toppings e os acompanhamentos.
Homusiá é uma categoria de comércio de comida comum em Israel. Pudera, lá o povo é apaixonado por homus e tahini, entre outras comidas típicas do Oriente Médio como falafel e shawarma, por exemplo.
Fui uma única vez, até o momento, a uma homusiá em Israel: em 2015 em Mitzpe Ramon, no deserto do Neguev, com o meu guia de turismo, Ilan. Estava viajando a convite do Ministério do Turismo de Israel numa viagem para reportagens. Chegamos à cidade “mortos de fome” e fomos à Homusiá do Ruivo (gingi, em hebraico). Adorei a experiência, e o homus estava bem gostoso.



A Experiência Homusiá, conforme Shlomi definiu, “é trazer Tel Aviv para a casa das pessoas. É uma refeição completa, que segue num kit, onde você fica com a barriga cheia e feliz”. À beira do Mediterrâneo, Tel Aviv é a segunda maior cidade de Israel, atrás somente da capital do país, Jerusalém.
Shlomi entrega o kit aos clientes com três bilhetes. O primeiro é escrito a mão, onde ele sugere que o cliente veja um vídeo no IGTV do Instagram do seu site, com sugestões de consumo. Também pede um feedback, agradece, conta que parte da renda será destinada a uma iniciativa de combate a fome (Programa Acolher) e, por fim, assina em hebraico. O segundo bilhete reúne uma playlist no Spotify, com três músicas para que os clientes “se sintam em nossa homusiá”. O terceiro e último traz a relação de produtos que há no kit, com uma pequena explicação de cada um.
De fato, jamais tinha visto uma iniciativa dessas. Mazal tov! A expressão é algo como o nosso parabéns, na tradução do hebraico.


Os três bilhetes demonstraram o serviço ímpar da proposta do Shlomi. “Não é só entregar e esquecer!”, assegurou o israelense. Todo esse carinho, além dos elogios à comida, é responsável por uma leva de comentários positivos no Instagram. Toda semana, sobretudo às segundas e terças, o cozinheiro reposta as impressões dos seus clientes, sempre elogiosas, ao trabalho dele.
O Sabores de Israel está presente como site e no Facebook e Instagram. Em relação às mídias sociais, Shlomi contou que é mais ativo no Instagram. “É mais agradável de se trabalhar e de usar, além disso a interface com o cliente é bastante direta e próxima”, explicou ele.
Aliás, as vendas do kit Experiência Homusiá são feitas exclusivamente pelo Instagram (as informações estão no Como Funciona). Por lá que o Shlomi passa o preço, explica as formas de pagamento e questões relativas à entrega.



COMIDA EXCELENTE: ITEM POR ITEM
Já tive a felicidade de viajar algumas vezes a Israel e, em relação aos itens comestíveis da Experiência Homisiá, acredito que o Shlomi traz, sim, uma amostra fiel do que se come por lá. Mas vamos aos comentários.
Homus — Como o do Shlomi, bastante cremoso, ainda não tinha comido. É aveludado, bom demais! Como não poderia deixar de ser, é o carro-chefe da experiência. “Há um jeito de fazê-lo ficar leve e, por isso, não incomoda o intestino na digestão”, explicou ele.
O homus tem como toppings grãos de bico e molho tetabile, feito com pimenta de cheiro, limão siciliano e alho, levemente temperado flor de sal. Não conhecia esse molho. Ótimo!

Mousse Hatzilim (creme de berinjela) — Esse prato não conhecia. Achei que é um primo do famoso babaganush. Muitíssimo leve e bem temperado. Adorei. Na apresentação do Shlomi, ele assegura que é “uma receita exclusiva de restaurante do litoral de Tel Aviv“.

Tzatziki — Ícone da culinária grega, esse prato na reúne “pepino, iogurte, coalhada seca, dill (endro) e temperos”. Shlomi explicou dizendo que essa receita “tem mais pepino, é a adaptação israelense”. Gostei dessa variante do tzatziki. Já comi o original em Atenas e, de fato, o à moda de Israel é diferente. Gostei demais.
O dill é um tempero usado demais em vários países da Europa, como os da Escandinávia, Alemanha e nações do mundo eslavo, como Polônia, Ucrânia, Rússia etc. Ingrediente crucial para fazer picles, por exemplo.

T´hina ve Dill — O Shlomi explicou que a receita é do pai dele, Alon. Trata-se do patê de tahini. Para mim soa estranho chamar tahini de patê. Prefiro usar o termo molho. O do Shlomi é muito bom, numa forma tênue entre o denso e o líquido, tendendo mais para o primeiro, como prefiro. Diferente para mim foi ter o dill junto, que agregou sabor.

Salat Israeli — De acordo com o cozinheiro, é o “vinagrete à moda israelense”, presença constante e diária nos pratos por lá. Boa.

Salat Tiras — É a receita de uma hamburgueria tradicional de Tel Aviv, conta Shlomi. Leva milho, picles e dill. Boa de sabor, mas não curti. Milho cozido é bastante comum para nós brasileiros.

Matbuha — Molho marroquino de longo cozimento com tomates, pimentões e pimentas. “Faz parte da mesa israelense de saladas”, disse o cozinheiro. Hummm, que gostoso! Adorei. Tempero e sabores excepcionais. Talvez já tenha comido em Israel.

Amba — Molho bem diferente, pois mescla o doce da fruta, no caso a manga, com especiarias e temperos. É de origem iraquiana. Em Jerusalém comi como ingrediente do sabich (fala-se sabir, com o “r” de um carioca), um sanduíche na pita com saladas, tahini, ovo cozido e berinjela frita. A criação é de um judeu iraquiano que imigrou para Israel. É bem diferente para o paladar brasileiro e, no meu gosto, caiu super bem.

Zhug Verde — Outro molho muito, mas muito diferente para os gostos no Brasil e, na minha opinião, bom demais. A receita é do Iêmen e leva coentro, pimentas, alho e especiarias. Shlomi explicou que é a versão “suave”. Fico imaginando a versão normal, então… Foi dessa forma ele me fez comer coentro! Como o mundo dá voltas… Sou anticoentrista. Já provei essa erva, possivelmente numa moqueca, e passei a detestá-la. Decorei como se fala em alguns idiomas pra não ter surpresas em viagens: cilantro (espanhol), coriander (inglês), coriandre (francês) e kúsbara (árabe e hebraico). Mas aqui dou o braço a torcer… Comi o zhug verde e gostei demais! Essa mistura que os iemenitas criaram é fantástica e, por conseguinte, comi coentro. Quem diria?!?! No entanto, antes de engolir fazia uma careta. Fiquei surpreso comigo mesmo.

Pitot — Plural de pita, em hebraico. É o pão conhecido aqui no Brasil como pão sírio. Shlomi usa uma receita iemenita, onde o resultado traz uma massa consistente (que não se desfaz com facilidade com os molhos mais líquidos) e macia. Gostei do sabor e da fofura. Ótimo pra receber os molhos, o homus e os patês da Experiência.

Tudo chegou em casa em uma sacola de papel, onde cada item vinha numa embalagem de plástico lacrada. “Viajou bem”, ou seja, nada vazou. Quanto à temperatura, só os pães é que ficaram melhor aquecidos (usei a sanduicheira).
Aqui em casa, minha esposa e meus enteados (um casal) mandaram ver e gostaram muito da Experiência Homusiá.


DARK KITCHEN E PLANOS PARA O FUTURO
Toda a produção dos kits da Experiência Homusiá é feita por Shlomi na sua dark kitchen, localizada no centro de São Paulo. As entrega ocorrem às sextas e aos sábados.
Eu tive minha Experiência no dia 24 de abril passado e, no mês seguinte (11/5), ele anunciou a dark kitchen num post no Instagram com a assinatura do contrato. “O local em que está instalada a cozinha nova é muito lindo, está cercado por pessoas do bem e energia muito positiva. Pela primeira vez sinto a liberdade — e a responsabilidade — de poder traçar rumos”, escreveu.
Quando perguntei se um restaurante pode ser avistado lá na frente, Shlomi usou da prudência, ou seja, cada passo de uma vez. “Com uma dark kitchen dá para oferecer mais produtos. Espero que as opções cresçam”, afirmou ele, que tem grande admiração por três chefs israelenses. Confira: Eyal Shani, o fundador e dono dos restaurantes Miznon; Gil Hovav, chef celebridade, teve programa na TV e hoje mantém um podcast; e Raphi Cohen, ex-chef do Hotel King David em Jerusalém. “Nos vários livros que escreveu, Cohen ensinou muitos, muitos segredos, os detalhes, o cuidado e a atenção que se deve prestar para o sentimento na hora de cozinhar. Gosto muito dele”, opinou.

Servir falafel e sabich também fazem parte dos planos do cozinheiro. Neste espaço entre minha entrevista e a publicação do texto, a ideia de fazer falafel saiu do papel na semana passada.
Num post no Instagram, Shlomi anunciou o que também perguntei pra ele. “Siiim, galera, saiu finalmenteeeeee. Tem falafel!”, escreveu ele todo contente. “Sem muito alarde e com aquela coisa meio de repente, resolvi fazer falafel e enviei para quem pediu kit. Uma cortesia pra pedir feedback, pra entender se estava bom, gostoso, crocante, saboroso. Se viajava bem. O retorno foi tão bom que é possível pedir falafel como complemento do kit.”
Shlomi sugere o consumo dos bolinhos de falafel como sanduíche, ou seja, dentro da pita. Em Israel, ele é fã do sanduba de falafel do Hakosem, que fica em Tel Aviv. A paixão é tão grande que faz ele “desviar do caminho antes de ir pra casa da minha mãe quando chego em Israel”, escreveu com humor.


Eu ainda não provei o falafel do Shlomi, que não segue a Kashrut — conjunto de normas que regula a alimentação do povo judeu — e nem é religioso. Bem, o sabich deve estar a caminho (tomara).
Quando o assunto é futuro, Shlomi não falou muito. Ele é adepto da expressão “leat, leat”, ou seja, devagar, devagar, em hebraico. “Pé no chão” como falamos por aqui. Bem, muita gente, como eu, vai estar esperando as novidades. Que sejam gostosas como a Experiência Homusiá, que super recomendo! De fato é uma forma singular de servir e saborear comida israelense.
*A reportagem do Que Gostoso! recebeu graciosamente o kit Experiência Homusiá
SERVIÇO:
Experiência Homusiá — Sabores de Israel
www.saboresdeisrael.com.br
Instagram
MINHA EXPERIÊNCIA COM O SITE DO SHLOMI
Há alguns anos, procurando receitas de falafel na internet, encontrei o site Sabores de Israel, do Shlomi Asaf. Naveguei pelo mesmo e achei — e ainda acho — bem completo, amplo e bem didático. Adorei a viagem pelos sabores israelenses. Não sei precisar há quanto tempo, mas o site foi renovado e ficou ainda melhor.


Mas a iniciativa de fazer os bolinhos de grão de bico e também o homus, por meio do site do Shlomi, ocorreu em novembro de 2020. As receitas do site explicaram tudo e muito mais, com as bacanas dicas do autor.
Mesmo não “tendo” as mãos do Shlomi nem usando, sem ter a certeza, as mesmas marcas dos ingredientes, acho que cheguei a um bom resultado em ambos os pratos. Estava tudo muito bem saboroso.

Sim, deu bastante trabalho. E o que deu mais trabalho na minha opinião, e que desisti depois, foi tirar a casca de toda a quantidade do grão de bico. Tirei de bastante grãos, mas não de todos. Tem de ter muita paciência e s*** pra isso, nossa!


Ao final os dois pratos ficaram gostosos. Não cheguei, é verdade, ao ponto do homus “veludo” do Shlomi. O dele fica melhor, muito melhor. Já o bolinho de falafel ficou bastante saboroso. Adorei as receitas dele.

Portanto recomendo a você. que gosta de cozinhar pratos do Oriente Médio, seguir as receitas do site Sabores de Israel. (Claudio Schapochnik)