Sitio em Cunha SP produz cafe agroecologico 1 Foto Renata Leitão

Sítio em Cunha (SP) produz café agroecológico

por CLAUDIO SCHAPOCHNIK

Sabia que na linda e bacana Estância Climática de Cunha, localizada entre as serras da Quebra-Cangalha, da Bocaina e do Mar, distante cerca de 230 quilômetros de São Paulo e a 45 quilômetros de Paraty (RJ), entre tantas gostosas que são plantadas e feitas por lá, para comer e beber, há também café? Sim, café! Eu me refiro ao produzido no Sítio Verde Agroecológico. A propriedade pertence ao casal Clarice de Souza Dias Cará e Gerson Leitão, respectivamente, jornalista e produtor rural/guia de turismo. Eles cultivam o arábica catuaí amarelo, vermelho e amarelo 62 e o comercializam com a marca Café Especial Serra da Bocaina.

Como o nome do sítio denota, a produção segue normas sustentáveis: os cafeeiros foram plantados em meio a uma agrofloresta, em consórcio com outras árvores frutíferas como abacateiros, jabuticabeiras e limoeiros, entre outras.

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No alto e acima, o café arábica catuaí cultivado no sítio em Cunha (fotos Renata Leitão)

Quem me contou essas características bem bacanas foi a Clarice, minha colega de profissão, em uma entrevista por Whatsapp. Ela tem 42 anos, é paulistana e ex-funcionária pública da Prefeitura Municipal de Paraty. Atualmente faz a comunicação institucional e contabilidade do Sítio Verde Agroecológico.

Nesta entrevista, que bacana, ela conta que estuda junto com Leitão abrir o sítio para o turismo rural. Tudo depende da melhoria das condições da estrada que leva à propriedade. Torço para que esse projeto seja concretizado num futuro próximo, pois a proposta do casal é muito interessante.

Nesta entrevista, Clarice fala mais de agroecologia e sustentabilidade e onde é possível comprar o seu café, seja em Cunha ou Paraty. Eu ainda não provei o Café Especial Serra da Bocaina, que parece ser muito saboroso. Leia a entrevista na íntegra abaixo.

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Trecho do cafezal da propriedade

QUE GOSTOSO! — Por que escolheu Cunha para produzir café? A propriedade produz comercialmente outras culturas?
Clarice de Souza Dias Cará — Eu e o Gerson Leitão, meu companheiro, morávamos em Paraty no Estado do Rio de Janeiro. Além de produtor rural, ele também trabalha como guia de turismo com as línguas francesa, italiana e espanhola. E eu trabalhava na prefeitura. No início escolhemos uma terra com a finalidade de plantar agrofloresta e recuperar nascentes. A proximidade de Cunha com Paraty, de 45 quilômetros, nos permitia chegar na propriedade com rapidez.
A escolha pelo cultivo do café agroecológico veio em um segundo momento, pois é uma planta que aceita muito bem o sombreamento manejado. Há também no sítio produção de frutas das árvores consorciadas com o cafezal, que são goiaba, banana, abacate, jabuticaba, limão galego, pêssego, manga e laranja. Essas frutas são consumidas dentro do sítio e também comercializadas em loja em Paraty.

QUE GOSTOSO! — Como você define o café da sua propriedade?
Clarice — O café do Sítio Verde Agroecológico é cultivado em sistema agroflorestal, sombreado por árvores nativas da Mata Atlântica. Por isso, tem um sabor mais doce porque o sombreamento permite que o fruto demore mais tempo para amadurecer, o que faz com que retenha mais açúcares. Também é livre de agrotóxicos e herbicidas. Além disso, é um café de categoria “especial” que obteve 86 pontos em 2019 na análise sensorial feita pelo Instituto Federal Sul de Minas.

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Os frutos do cultivar catuaí: café “especial”

QUE GOSTOSO! — Qual é a sua opinião sobre a percepção do brasileiro sobre o café: houve uma grande evolução nas últimas décadas? Ele valoriza produtores como vocês?
Clarice — Sim. Está evoluindo, porém lentamente. A maioria das pessoas compra cafés de categoria “tradicional” abaixo de 80 pontos. São cafés que, além do bom grão, têm também grãos com defeitos como brocas, mal formados, quebrados etc. Um dos motivos é o preço que é mais baixo. O outro é falta de informação mesmo. Há pessoas com poder aquisitivo que poderiam consumir café especial, que tem um valor mais alto mas não consomem porque não sabem a diferença entre um “especial” e um “tradicional”.
Consumo de café especial no Brasil é algo novo, tem cerca de 20 anos. Mas aqueles que já começaram a consumir café de qualidade também procuram por produtores que o fazem respeitando o meio ambiente e promovem relações justas de trabalho.

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O cafezal faz parte de uma agrofloresta

QUE GOSTOSO! — Aí na propriedade, qual ou quais são as espécies de café cultivadas? Quais são as características delas?
Clarice — Aqui no cultivamos café arábica catuaí amarelo e catuaí vermelho. Temos catuaí amarelo 62 em maior quantidade. É uma variedade que tem boa adaptação aos extremos de temperatura, resistência ao phoma, um fungo que deixa manchas e buracos nas folhas. Possui maturação média a tardia, porte baixo com frutos abundantes. Promove uma ótima qualidade à bebida na xícara.

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O pacote de café produzido na propriedade

QUE GOSTOSO! — Como as pessoas podem comprar o café de vocês: há loja online, comprar na propriedade, comprar em mercados e empórios parceiros?
Clarice — No momento os pacotes acabaram. Para fevereiro de 2022 o Café Especial Serra da Bocaina, como é chamado, poderá ser comprado na Rodovia Paulo Virgílio (SP-171, Cunha—Paraty) em todas as paradas sentido Cunha e também no Centro de Cunha, no Armazém 72. Em Paraty pode ser comprado na Montañita Cafés Especiais, no Centro Histórico, que também é responsável pela torra do nosso café. Para 2021 temos planos de abrir loja no instagram. O preço do pacote de 250 g é R$ 35, moído ou em grãos.

QUE GOSTOSO! — A propriedade de vocês recebe turistas?
Clarice — Não.

QUE GOSTOSO! — Pretendem receber no futuro?
Clarice — Temos um plano de abrir o Sítio Verde Agroecológico para visitação. Estamos vendo meios de melhorar a estrada e o acesso. Feito isso, a ideia é receber os turistas e fazer uma caminhada pela lavoura contando sobre a formação. Os visitantes também poderão colher os frutos de cafés se for época de colheita, que vai junho a agosto. Após isso, o visitante poderá realizar os processos de secagem, benefício e torra de maneira manual. E então provar um delicioso café especial com bolo. Não temos data para por a visitação em prática, pois vai depender da melhoria da estrada.

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O processo de secagem dos frutos

QUE GOSTOSO! — O terroir de Cunha imprimiu alguma característica peculiar ao café de vocês? Se sim, descreva.
Clarice — Sim, com certeza. Entre os atributos sensoriais destacados, o café obteve notas de mel, hortelã, capim cidreira, própolis, floral, jasmim e sal. Este último provavelmente por conta da proximidade com o mar. A propriedade está distante 15 quilômetros do litoral de Paraty.

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Área do sítio: preocupação com a sustentabilidade

QUE GOSTOSO! — Quer colocar algo que não perguntei e você acha importante ou interessante? Aqui é o espaço.
Clarice — Temos vistos muitos cafezais sofrerem com as mudanças climáticas. Este ano tivemos, em um curto espaço de tempo, chuvas de granizo e tempestade de areia no fim do inverno. Além disso tivemos três geadas e um período longo de estiagem. Felizmente esses fenômenos não ocorreram aqui no sítio. Porém há necessidade imediata de que os produtores de café, e não só dessa cultura, comecem a trabalhar em acordo com os recursos naturais, com o solo, com a água e busque a sua preservação para que o seu negócio continue a existir de forma sustentável, evitando o esgotamento dos recursos naturais.

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