Memória: chá adoçado com geleia de morango caseira

por Claudio Schapochnik

Faço um aviso a você, caro(a) leitor(a): este é um texto que une culinária, especificamente geleia de morango e chá, e memória familiar, no caso de minha parte materna.

Conversava muito com minha mãe, Eva (1939-2018), sobre culinária, pratos, costumes, refeições, receitas, enfim, tudo ligado ao bom comer e beber. Ah, que saudade… Assistíamos na televisão programas culinários e observava ela, toda concentrada, anotando a receita e o modo de preparo – fazendo comentários ao mesmo tempo. Foi com minha querida mãe que, por exemplo, conheci a outrora icônica cozinheira Ofélia Ramos Anunciato (1924-1998) com seu programa A Maravilhosa Cozinha da Ofélia (TV Bandeirantes).

Mamãe foi uma excelente e maravilhosa cozinheira. Saudades eternas dela e dos seus pratos…

Registro de meu último encontro com a tia Sofia, em dezembro de 2019: xícaras vazias com o chá adoçado com geleia de morango (foto Acervo Pessoal)
Capa de um dos livros da famosa Ofélia: assistia seus programas graças à apresentação da minha mãe (imagem de internet)

Pois bem, num desses papos sobre hábitos alimentares, perguntei à minha mãe o que ela comia quando vivia com sua família no bairro do Ipiranga (Zona Sul de São Paulo). Naquela casa, além dela, moravam os pais, meu avô Henrique e minha avó Esther, ambos nascidos na Lituânia e também falecidos, e o irmão, meu tio Isidoro.

Ela me contou uma história que fiquei com água na boca desde então. Minha mãe disse que sempre quando meus avós recebiam familiares e amigos, todos judeus e lituanos como eles, geralmente aos domingos, o alegre bate papo seguramente falado em iídiche – idioma derivado do antigo alemão, com a adição de palavras hebraicas e eslavas – era à base de chá. Lituanos, assim como muitos outros povos, são fãs desta bebida quente.

Como o chá era adoçado? Reunião de imigrantes, todos vindos de um país que, por causa do clima, não cultiva cana de açúcar e, portanto, não tinha açúcar de cana. Imagino, pois não foi abordado pela narradora, que não era adoçado com este tipo de açúcar. Aí vem o pulo do gato…

“Sabe como sua avó adoçava o chá, Claudio? Com geleia de morango”, contou-me a Evinha querida. Nossa, naquele momento devo ter salivado. Por quê? Porque a geleia de morango era feita pela vovó Esther e era muuuuuito maravilhosa. Na foto no início do texto, a foto onde refaço a cena comum das rodas de conversa no Ipiranga de décadas atrás.

Recordo como ficava feliz quando minha mãe trazia um pote, geralmente um vidro antes de palmito ou azeitona, dessa geleia para casa. “Ó, a vovó Esther fez geleia”, dizia ela, voltando do Bom Retiro, bairro da região central da capital paulista – onde minha avó viveu por muitos anos em um apartamento na rua Correia de Melo.

Morangos que vão virar uma deliciosa geleia: poderia ser a imagem da que fazia a minha avó (foto Pixabay)
Geleia de morango sobre fatias de pão de fôrma: em casa era com torrada de pão francês (foto Pixabay)

Ah… Era uma delícia comer a geleia da vovó passada nas torradas, feitas de pão francês que sobrava, no café da manhã por alguns poucos dias. Não durava muito, não! Na residência de meus pais, no bairro da Casa Verde (Zona Norte), além de mim e da Evinha, moravam meu queridíssimo e também saudoso pai, Edison (1931-2014), e meus três irmãos, Nelson, Marcelo e Arnaldo. Todos eles também eram fãs desse doce e “bons de garfo, faca e colher”.

O que tinha de especial nessa geleia? Sobretudo muito amor e carinho. Concretamente, acho que era feita apenas com morangos e açúcar. Lembro da cor: vermelho brilhante. Lembro da textura: geleia mole, com pedaços de morango bem cozidos. Lembro do sabor: maravilhoso. Nossa…

Em 2014 minha mãe, Eva (centro), me acompanhou na visita à casa da tia Sofia, onde estava ainda outra sobrinha dela e prima da mamãe, a Sarinha (foto Acervo Pessoal)

Anos se passaram desde esse papo da geleia de morango que adoçava o chá. Agora estamos em dezembro de 2019. Naquele mês fui visitar a minha tia Sofia – irmã caçula da minha vovó Esther – no seu apartamento em Higienópolis, região central de São Paulo. Como minha mãe contou, a tia viveu um tempo na casa de sua irmã no Ipiranga e, portanto, também bebia o referido chá. Casada com o tio Manuel, o casal morou por décadas em Porto Alegre. Depois eles começaram a viver na capital paulista, e ela ficou viúva. Não tiveram filhos.

Essa visita no ano passado foi a terceira que fiz à Sofia – como minha mãe a chamava, não usando a palavra tia. A primeira naquele apartamento tinha sido em 2014. Motivo: ter uma conversa específica sobre a Lituânia. Perguntei onde elas nasceram, pois iria visitar o país naquele mesmo ano. Tia Sofia me ajudou bastante: Širvintos e Giedraičiai, respectivamente, a cidade natal dela e de minha vó. O município onde nasceu o vô Henrique já sabia por meio do meu tio Isidoro: Panevėžys.

Mapa da Lituânia, com a localização da capital, Vilnius, e a cidade natal da tia Sofia (Google Maps)
Rodoviária de Širvintos, a cidade onde nasceu a tia Sofia (fotos Claudio Schapochnik/Que Gostoso!)
Uma casa típica lituana, em madeira, em Širvintos

Fiz uma viagem linda e emocionante à Lituânia e conheci as três cidades. Com exceção de Panevėžys, visitada anteriormente pelo meu primo Henrique, filho do tio Isidoro e da tia Lea e também jornalista, fui o primeiro membro da família que regressou a Širvintos e Giedraičiai. Posteriormente, mostrei as fotos da viagem à tia Sofia.

Nenhum dos três – Henrique, Esther e Sofia – retornou à Lituânia. Minha vó e minha tia, recordo das conversas, sofreram demais por causa do antissemitismo e da fome e, obviamente, quando falavam da vida naquele país o semblante era de tristeza. Imagino sofrimento semelhante sentido pelo meu vô. Escrevi imagino porque ele morreu quando tinha apenas um ano de idade, em 1971. Pena.

Pois bem, no bate papo com a tia, agora em dezembro de 2019, comentei com ela o chá adoçado com geleia de morango. “Você quer tomar um chá, então? Eu tenho geleia de morango, não é caseira, tudo bem?”, disse-me ela, para minha surpresa. Bem, nas vezes que a visitei houve sempre a oferta de uma bolachinha ou um refrigerante. Coisas do bem receber.

A tia me servindo o chá
Escultura em frente ao lago que há em Širvintos
Senhoras caminham em avenida em Širvintos

Ela pediu para a cuidadora dela ferver a água e arrumar a mesa. Minutos depois nos sentamos na mesa e, gentilmente, a tia me serviu de chá, mostrou a geleia e ofereceu bolo. Eu me servi do bolo e coloquei a geleia na xícara da bebida.

Não era igual a da vovó Esther, claro! Mas a atitude e o gesto da minha tia Sofia foram gigantes, de uma gentlewoman. Eu fiquei tão feliz de realizar, ainda que noutro contexto, aquele hábito contado pela minha mãe… Foi muito emocionante.

E, infelizmente, aos 97 anos, a tia Sofia morreu no último dia 13 de abril. Este texto é em homenagem a ela.

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