por CLAUDIO SCHAPOCHNIK_Rio de Janeiro/RJ
Numa agradável conversa com a Sônia – esposa do meu sogro, Roberto –, no Rio de Janeiro em algum momento de 2024 ou antes, quando pedi para ela dicas sobre restaurantes no centro da cidade, que ouvi falar pela primeira vez da Leiteira Mineira.
“Claudio, quando trabalhava no centro do Rio almocei muitas vezes na Leiteria Mineira. Um restaurante de comida muito saborosa”, me contou a Sônia num gostoso bate-papo onde também estavam o Roberto, a minha esposa, Mirella, e outros familiares.
“As mesas eram bem disputadas, pois muita gente dos escritórios de empresas, que era o meu caso, e das repartições públicas do centro almoçavam lá”, recordou ela, carioca da gema, que trabalhou no escritório de uma mineradora.


Depois de ouvir essa dica da Sônia, o nome Leiteria Mineira ficou gravado na minha mente. “Preciso ir lá”, dizia para mim mesmo, o que acabou ocorrendo meses depois.
Novamente no Rio, nos finalmentes de 2024, em pleno dia 26 de dezembro, troquei o banho de mar na praia de Copacabana por um passeio pelo centro. Mesmo com o calor que fazia.
Tenho um certo fascínio por essa região por alguns fatores: por poder estar em lugares que conheci apenas por meio dos livros de história e jornais impressos e televisivos e pelo que ouvi de tanta gente querida que já se foi – como meu pai, Edison, e minhas tias Anna e Esther – irmãs dele.

Ainda que nenhum deles tenha nascido no Rio – Anna, nasceu na então Bessarábia, depois República Moldova; meu pai e Esther, em Cruzeiro (SP) – a família Schapochnik sempre teve uma estreita ligação com a cidade.
Por quê? Porque meus avós paternos (Jayme e Sarah) chegaram ao Brasil, vindos da mesma Bessarábia, aportando no Rio de Janeiro e, posteriormente, foram morar em Cruzeiro, no Vale do Paraíba, interior de São Paulo.
No Rio, a família Schapochnik tinha familiares, ia visitá-los e comprava produtos têxteis. Vovô Jayme era mascate – klienteltchik, em iídiche, o idioma-materno dos judeus originários de países do Leste e Norte da Europa – e vendia de porta em porta. Com o progresso econômico, ele e a vovó Sarah se mudaram com os filhos para Lorena, na mesma região de Cruzeiro. Lá abriram uma loja de roupas.
Ah, a Tia Anna estudou contabilidade na então Capital da República. Por isso que escrevi que o laço dos Schapochnik com a cidade era estreita.

Em 1950, vovô Jayme e papai foram duas das 200 mil pessoas que assistiram, no Estádio do Maracanã, à final da Copa do Mundo de Futebol – Brasil x Uruguai. Vovô Jayme e papai foram duas das 200 mil pessoas que choraram ao ver o Brasil perder o jogo e o título para o Uruguai.
Dito isso, não fiquei triste, de forma alguma, em trocar a areia e o mar da praia de Copacabana pelo asfalto do centro da cidade.


Fui à Leiteria Mineira de metrô. Super simples. Peguei o trem na estação Siqueira Campos-Copacabana e desci na Carioca-Centro. Viagem de cerca de 20 minutos por R$ 7,50. Ótimo!
Da estação Carioca-Centro, que fica no Largo da Carioca, ao restaurante foram mais dois ou três minutos de caminhada.
Assim que cheguei à Avenida Rio Branco, avistei o enorme letreiro do restaurante. Parecia uma criança que viu a entrada do parque de diversões. Ah… Obrigado, Sônia!

CENTO E DEZESSEIS ANOS
A Leiteria Mineira foi fundada em 1909 em outro endereço no centro. Há quem diga que a fundação deu-se em 1907. O estabelecimento foi aberto pelos donos da Fazenda Socego, situada no interior de Minas Gerais. Objetivo: dar vazão à fabricação de laticínios da propriedade rural.
Localizada no térreo de um edifício, a casa possui dois enormes salões. Mobiliário simples e decoração com reproduções de jornais de época e fotos de clientes famosos e habitués.
O restaurante é todo climatizado. Que gostooooooso! O inferno ficou do lado de fora.
Sentei e dei uma olhada no extenso cardápio. Se papai estivesse comigo, ele diria, seguramente, depois de analisar o ambiente e o menu que era um “restaurante de antigamente”.
De fato, é um “restaurante de antigamente”.

Confira alguns dos pratos: carne moída, ovo e creme de espinafre; picadinho de carne com quiabo e arroz; peito de boi assado com feijão branco e arroz; especial canja à mineira; frango com arroz e molho pardo; língua fresca e fígado com diversas guarnições; e frango assado e galinha cozida com acompanhamentos etc.
Menu raiz.

Há ainda diversas meia-porções – como a casa chama os pratos comerciais – divididos pelos cinco dias da semana.
Entre outras opções li vitela assada com gnocchi; bacalhau desfiado com arroz; goulash à húngara; peixe à doret com purê; rosbife com salada mista; peito de peru à canadense; e rabada guisada com polenta e agrião etc.
Que gostooooooso!
As sobremesas são de antigamente também: creme maizena – sim, no menu está grafado com “z” –, arroz doce e coalhada. Todos podem levar, com outros valores, calda de ameixa e/ou ameixa com caroço. Há ainda banana split, pudim de leite, goiabada, doce de leite, salada de frutas, marmelada e frutas em porções.
O ALMOÇO EM SI
Quanto ao meu pedido, fui de meia-porção de costela de boi assada com arroz e batata (R$ 36,50), meia-porção de creme de espinafre (R$ 11) e uma cerveja (Original, R$ 17,70).
A comida chegou rápida, pois basta montar o prato.
O creme de espinafre, que revelou-se crucial na refeição, foi dica do meu cunhado, Ricardo. “Claudio, peça o creme de espinafre. Você vai adorar, é muito, muito bom”, disse-me ele, carioca da gema.

Assim como a Sônia, o Ricardo já me deu dicas gastronômicas interessantes do Rio de Janeiro. Sou sempre agradecido a ambos.
O prato veio com a porção de arroz delimitada numa forma de metal (de pudim?). Ok.
A costela bovina estava saborosa, com pedaços carnudos. Que gostooooooso!
A batata cozida me causou surpresa: veio uma só, um baita batatão – desculpe o pleonasmo. Rs… Acho que pesava um quilo!
Esperava a batata em pedaços e mais cozida ainda – não que o batatão estivesse mal cozido.

Sobre o creme de espinafre, pedi a meia-porção. O prato veio que como transbordando. Nossa… Fabuloso. Que gostooooooso! Lembrou o que minha mãe, Eva, fazia.
Ah… Na mesa ainda estavam uma lata de azeite de oliva e o molho de pimenta. Usei ambos na comida.
As garfadas de costela com creme de espinafre foram o ápice do almoço. Que gostooooooso!

Para a sobremesa, pedi um clássico da casa: creme maizena com calda de ameixa (R$ 13,80). Escolha certíssima.
Adorei o sabor de milho; o caldo não estava muito encorpado e tudo ficou muito bom com a canela em pó que coloquei a gosto e a calda de ameixa. Que gostooooooso!
O sabor da calda ainda se assemelhou à que mamãe fazia quando preparava o maravilhoso manjar branco, decorado também com ameixas pretas.

Almoçar na Leiteria Mineira foi uma experiência ímpar. Obrigado, mais uma vez, à Sônia pela dica sensacional. Super recomendo.
Constatei acesso fácil de metrô, preços camaradas, excelente atendimento, comida saborosa e toda uma atmosfera “de antigamente”.


Ótimo lugar para aquela parada num passeio histórico-cultural pelo centro carioca, que vale demais conhecer.
SERVIÇO:
Leiteria Mineira
Rua da Ajuda, 35, Loja A, Centro, Rio de Janeiro/RJ
Tel. (21) 2533-2931 e Whatsapp: (21) 98556-0983
Horário: segunda a sexta, 8h às 18h
Próxima da Estação Carioca/Centro do metrô – Linhas 1 e 2