Pesquisa desenvolve fermentado de acerola Foto Filipe Araújo Carvalho

Pesquisa desenvolve fermentado de acerola

por Cristina Tordin, da EMBRAPA MEIO AMBIENTE

Cientistas da Embrapa desenvolveram um método para preparação de bebida alcoólica fermentada de acerola (foto acima/Filipe Araújo Carvalho), em conformidade com a legislação vigente. O processo visa mitigar as perdas pós-colheita, inerentes à natureza perecível da fruta, apresentando-se como uma alternativa comercial viável para produtores e agroindústrias. No mercado brasileiro, uma garrafa de 750 ml do fermentado de acerola pode atingir o valor de até R$ 80.

As pesquisas foram realizadas na Embrapa Semiárido, em Petrolina (PE), região do Vale do São Francisco, que se destaca pelo cultivo da fruta. Atualmente, o Brasil é o maior produtor mundial de acerola, evidenciando um considerável potencial para a produção em larga escala do fermentado. O desenvolvimento da bebida ocorreu em ambiente laboratorial, utilizando polpa da fruta, utilizando acerolas in natura da variedade Junko.

Essa cultivar de acerola se destaca pelo alto teor de vitamina C, coloração vermelha atrativa, aroma e sabor exóticos. Além disso, é rica em outros compostos bioativos, como carotenoides e compostos fenólicos, conferindo propriedades antioxidantes, antimutagênicas, anti-inflamatórias e anti-hiperglicêmicas à bebida fermentada.

A pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente, Aline Biasoto, que conduziu os trabalhos no Semiárido, destaca que a produção de bebidas fermentadas de frutas representa uma estratégia para agregar valor, aproveitar diversas espécies frutíferas, diversificar canais de comercialização e reduzir desperdícios pós-colheita, beneficiando os agricultores e a agroindústria local, podendo até vir a ser uma alternativa de Turismo Rural.

Biasoto ressalta que, nos últimos anos, várias frutas têm sido utilizadas na produção de fermentados, muitas vezes chamados erroneamente de vinhos de frutas. No entanto, ela esclarece que, conforme a legislação brasileira, somente a bebida derivada da fermentação alcoólica da uva pode ser denominada como vinho.

Conforme o Decreto nº 6.871, de 4 de junho de 2009, fermentado de fruta é definido como uma bebida com graduação alcoólica entre 4% e 14% em volume a 20° C, obtida pela fermentação alcoólica do mosto da fruta sã, fresca e madura, do suco integral ou concentrado, ou da polpa de uma única espécie frutífera, podendo-se adicionar água.

O fermentado de acerola desenvolvido pela Embrapa apresentou características próximas a um bitter, oferecendo uma amargura distinta. Para a apreciação pelos consumidores, recomenda-se servir a bebida gelada, como aperitivo. O produto pode ser empregado na elaboração de coquetéis e na preparação de shrubs.

A produção do fermentado pode ser realizada de forma artesanal ou industrial. Independentemente do tamanho da produção, a precisão na proporção entre água e acerola é crucial para a qualidade do produto. O estudo recomenda a utilização de quatro quilos de frutas para dez litros de água. Essa proporção não apenas mantém a acidez dentro dos limites legais, mas também suaviza o gosto ácido da fruta, aumentando ainda o seu rendimento.

O processo de elaboração inclui a pesagem das frutas, adição de água, prensagem, fermentação, trasfega, estabilização e engarrafamento. Durante essas etapas, diferentes insumos, denominados coadjuvantes, são adicionados para obtenção do produto final.

Os detalhes do processo de elaboração da bebida, incluindo as quantidades e funções dos coadjuvantes utilizados estão disponíveis em publicação da Embrapa.

O produto resultante atende aos padrões de qualidade estabelecidos pela legislação brasileira, considerando teor alcoólico, extrato seco reduzido, acidez total, volátil e fixa. A bebida é classificada como fermentado suave em relação ao açúcar.

Além de cumprir as normativas, o produto também é uma fonte valiosa de nutrientes. O teor de vitamina C (ácido ascórbico) do fermentado de acerola (0,11%) é considerado alto para bebidas alcoólicas dessa categoria, embora inferior ao encontrado no fruto in natura.

“Mesmo assim, pode ser classificada como uma bebida alcoólica fonte de vitamina C. O teor de compostos fenólicos do fermentado de acerola também é significativo e superior ao valor determinado em vinhos tintos”, ressalta Aline.

A acerola, reconhecida pela tonalidade vibrante e avermelhada, enfrenta desafios para manter essa coloração nos produtos processados, podendo tornar-se alaranjada ou até mesmo amarronzada com o tempo. Durante o desenvolvimento do fermentado, a instabilidade da cor foi um dos desafios, pois tende a se degradar, relata a pesquisadora da Embrapa, Ana Cecília Poloni Rybka.

Após uma série de experimentos, os pesquisadores conseguiram conservar a coloração da bebida fermentada a base de acerola por um período interessante, resultado importante para a experiência sensorial do produto.

“A partir desse ponto, a pesquisa procura aprimorar ainda mais a estabilidade da cor e controlar a acidez, visando tornar o produto final atraente aos consumidores por maior tempo. Com isso, poderemos sugerir o seu consumo de maneira equivalente ao de vinhos e fermentados de frutas”, destaca Ana Cecília.

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