por CLAUDIO SCHAPOCHNIK_Ávila/ESPANHA*
Através da janela da van, ainda na rodovia, comecei a ver uma cidade murada. Minutos mais tarde, a cena começou a ficar mais nítida e parecia voltar no tempo, no tempo da Idade Média. A chegada a Ávila, na Comunidade Autônoma de Castilla y León, é, portanto, um acontecimento por causa do Centro Histórico totalmente muralhado de forma majestosa e bem conservada. Dentro e fora das muralhas, a cidade oferece uma interessante leitura do passado judaico.


Patrimônio da Unesco, Ávila é associada ao consórcio Caminos de Sefarad – Red de Juderías de España. Lá estão pelo menos dois prédios que antes funcionavam como sinagogas, o que foi um míkvê – “piscina” usada em ritos de purificação israelita – e uma passagem na muralha onde, acredita-se, os judeus deixaram a cidade em 1492 – ano da expulsão dos judeus da Espanha.


Ícone da cidade, a muralha foi construída no século 12 em cima de bases da época romana quando se chamava Ábila e integrava a Província da Lusitânia. Quase três quilômetros de muralha estão abertas ao turismo e podem (e devem) ser percorridos. O acesso é pago. Entrei no Centro Histórico pelo Portal de São Vicente.



Lá dentro é uma cidade “normal”, com casas, escritórios municipais, vias abertas aos carros, ruas peatonales (só para pedestres), igrejas, hotéis, bares, restaurantes etc.
Em relação à história israelita, acredita-se que desde a época do Império Romano já havia judeus na cidade. Outra versão diz que, séculos mais tarde (1085), com a tomada de Ávila junto aos invasores muçulmanos pelo rei castelhano Alfonso 6°, a comunidade judaica também foi chamada a repovoar a região. A primeira menção documentada data de 1144.
A comunidade judaica local foi bastante próspera. Ávila deve ter tido 11 sinagogas dentro das muralhas. A estrutura de um destes templos, a Sinagoga de Don Samuel, ainda está lá na rua Pocillo – construção que tornou-se uma residência particular. Fica no bairro judaico de Santo Domingo.

BELA RECEPÇÃO E MÍKVÊ
Ao chegar à rua dos Reis Católicos, principal via comercial de Ávila desde a Idade Média, me surpreendi ao ver muitos estandartes com símbolos judaicos, como estrelas de Davi e menorot – plural do hebraico menorá, candelabro judaico de sete braços. Que calorosa recepção. Adorei!
Claro, não era para o grupo do qual fazia parte, mas ficou sendo.



Por que havia essa decoração especial? Porque dias depois da minha visita à cidade aconteceu mais uma edição das Jornadas Medievais. Trata-se de um festival artístico-cultural que recorda o período medieval local.
Vi uma exposição de fotografias das Jornadas Medievais do ano anterior (2021) em Ávila. Nossa… Um evento extremamente interessante, alegre, inclusivo, colorido, cheio de arte, cultura, apresentações, gente fantasiada etc. Fiquei com vontade de conhecer, com certeza.

Outra incrível surpresa nesta área: dentro da Antika Snoga Hospedería, onde funcionou outro antigo templo, dá para ver o local na recepção onde seguramente foi um míkvê. Segundo a instituição judaica Beit Chabad Central, de São Paulo, a palavra hebraica “significa junção (de águas) de fonte natural, preservadas a uma temperatura agradável”. Entre outras funções, o banho na míkvê, que é feito por homens e mulheres de forma separada, tem funções ligadas à purificação. Para mais informações, clique aqui.
Ah! Vale lembrar que snoga (ou esnoga, no português antigo) é um sinônimo de sinagoga.




Perto da hospedaria, numa praça, fica uma estátua de Santa Teresa de Ávila (1515-1582), freira da Ordem Carmelita. Ela tem origem israelita, visto que seus pais eram judeus convertidos ao catolicismo. Ela nasceu e foi batizada em Ávila.



PASSAGEM DA TRISTEZA
Mais à frente da praça fica a Porta de Malaventura na muralha da cidade. Uma das interpretações, dita pela guia de turismo do grupo, diz que foi por lá que os judeus deixaram Ávila após a expulsão.
Ali há um jardim em lembrança ao rabino espanhol Moshé de León (1250-1305), que publicou em 1290 um dos mais famosos livros da mística judaica, a Cabalá (recebimento, em hebraico), intitulado Zohar (brilho, em hebraico).

Atravessei a Porta de Malaventura e imaginei o quão terrível foi ter de deixar um país apenas e tão somente por ser judeu e judia.
Há ainda outra versão de que os judeus expulsos deixaram Ávila pela Porta Sur (sul, em espanhol).

Fora das muralhas está o antigo cemitério israelita, hoje um gramado bem conservado. Nenhuma lápide sobrou.


Além da belíssima muralha, a herança judaica de Ávila provocou muitos pensamentos e muitas emoções. Adorei demais.
SERVIÇO:
Turismo da Espanha
Red de Juderías de España
Turismo de Ávila
*O QUE GOSTOSO! viajou a convite do Turismo da Espanha e da Red de Juderías de España