Brindando com V: viagem, vinho e vodca

por Lucia Grimaldi*

Olá, internautas amantes do vinho! Hoje vou compartilhar com vocês uma experiência ímpar que vivi em julho do ano passado, quando visitei com meu filho um país surpreendente: a Rússia.

E quem, assim como eu, pensou que lá só se bebe vodca, está enganado. Claro que é a bebida mais famosa e, em minha opinião, a melhor produzida, mas há uma diversidade de cervejas, espumantes, vinhos e drinques em geral, claro, nem todos produzidos na Rússia. Os fantásticos vinhos laranja, por exemplo, são produzidos na vizinha Geórgia, aliás já escrevi uma matéria sobre isso (para lê-la, clique aqui).

A primeira bebida que degustei em solo russo não foi vodca, nem tão pouco vinho: foi a kvass. A kvass é uma tradicional bebida russa, de origem milenar, muito popular também em outras ex-repúblicas soviéticas e na Europa Oriental. Como me disseram em São Petersburgo, é uma bebida fermentada a partir de pão de centeio e ervas (na língua eslava, kvass significa “fermento”) e culturalmente muito importante para os russos, tanto que aparece em muitos filmes e clássicos literários. E mesmo com o fim da URSS e uma maior oferta de bebidas ocidentais, a kvass ainda faz muito sucesso por lá.

Garrafa de kvass no hotel Herzen House, em São Petersburgo

Levemente gaseificada, adocicada e com teor alcoólico baixíssimo, variando entre 0,05% e 1,2%, é considerada um tipo de refrigerante e chegou a ser chamada de “Coca-Cola comunista”. É vendida em supermercados, lojas de conveniência e até mesmo em quiosques nas ruas.

A kvass Staromonastyrsky (Antigo Mosteiro), da marca Atanásio. É uma receita criada por monges há centenas de anos e guarda toda a tradição da bebida. A disposição em garrafas de vidro, tem parte da venda revertida para a manutenção da ordem monástica
A kvass NiKola, a pioneira com patente da bebida. Muito popular na Rússia, é produzida pela Deka e vendida em garrafas plásticas e em latinhas

Depois desta surpresa, comecei a procurar por algo mais parecido com o vinho. Sabemos que, além das uvas, outras frutas podem ter seu suco fermentado. Há “vinhos” feitos de abacaxi, de pêssego, de nectarina, de maracujá. Em São Petersburgo, provei uma sidra orgânica elaborada pela fermentação natural do suco de pera, sem adição de álcool. Produzida pela cervejaria orgânica russa Medovarus (http://www.medovarus.ru/), sediada em São Petersburgo, é uma saborosa bebida meio doce, gasosa no ponto ideal, com teor alcoólico de 4,5%. A Cervejaria Medovarus recebeu o prêmio pela melhor sidra russa em 2019.

A sidra de pera da Medovarus

Seguindo minhas aventuras etílicas, parti para os espumantes, e os produzidos pela ChâteauTamagne, localizada em Taman, zona rural no distrito de Temryuksky de Krasnodar Krai, a cerca de 1.000 quilômetros de Moscou, na Baía de Taman, são muito populares e tem um ótimo custo benefício. Provei o espumante brut branco, elaborado pelas variedades Chardonnay e Riesling, além de outras variedades vitiviníferas em menor proporção. Com aromas florais, notas frutadas e perlage fino, é um espumante muito agradável e fácil de beber.

O vinho espumante Château Tamagne Brut

O espumante Château Tamagne Brut harmonizou muito bem com o tradicional estrogonofe, na receita original no restaurante Russian Empire, localizado no lendário Palácio Stroganov, em São Petersburgo. Aliás, uma experiência imperdível.

Brindando com espumante Château Tamagne Brut no restaurante Russian Empire
O original estrogonofe, cuja criação é atribuída, por muitos historiadores, ao conde e diplomata Pavel Stroganov

Provei também dois espumantes da conhecida vinícola Fanagoria, também localizada na região de Krasnodar e umas das cinco maiores produtoras de vinho da Rússia: o espumante Muscat Ottonel Brut, que foi premiado na França com a medalha de prata e o Muscat Ottonel Semisweet. São espumantes elaborados com a variedade Muscat Ottonel, uma uva branca da família Moscatel (muscat em francês, moscato em italiano), muito usada em espumantes e vinhos de sobremesa, principalmente nos países do Leste Europeu. Muito aromática, chama a atenção por ser uma das raras castas, talvez a única, que origina vinhos com aromas de uvas maduras. Geralmente, os vinhos não têm perfume de uva…

O espumante Muscat Ottonel Semisweet tem aromas e sabores de frutas cítricas, mel, banana, damasco e notas florais de rosas e jasmins, além de um toque de biscoito e o inconfundível perfume de uvas maduras. Gostei tanto que trouxe uma garrafa para casa (em terras brasileiras nas duas fotos acima)
No restaurante Moliere do Hotel Volgograd, na cidade de Volgogrado, provei esta maravilha de sobremesa à base de merengue e maracujá, chamada Anna Pavlova, em homenagem à bailarina russa, que harmonizou muito bem com o espumante Muscat Ottonel Semisweet

Quanto aos vinhos tranquilos, nos mercados e nas lojas especializadas há uma grande variedade disponível. Encontramos vinhos de países do mundo inteiro, especialmente da França e da Itália. Quanto aos produzidos na Rússia, a maioria vem da região de Krasnodar. A oferta de vinhos provenientes da Geórgia, que produz vinhos de alta qualidade, também é vasta, até mesmo pela proximidade territorial.

Saperavi: vinho tinto seco da região de Kakhetia, na Geórgia, produzido pela Kvareli Cellar. Com teor alcoolico de 13%, é elaborado 100% pela casta saperavi, uma uva tintureira nativa do país. No detalhe, uma réplica em miniatura do popular automóvel russo: o Lada Laika

Os vinhos econômicos em embalagem tetra pack também são sucesso em terras russas.

Vinho Kuban Vermelho: tinto meio doce, com 11% de teor alcoolico, produzido na região de Krasnodar. De cor rubi brilhante, com reflexos de cor púrpura e aromas de chocolate e frutas secas, foi comprado na cidade de Volgogrado (antiga Stalingrado).

Como não podia deixar de ser, é claro que provei a famosa vodca russa.

Vodca recém-saída do congelador: maneira tradicional russa de bebê-la

Há vodcas para todos os gostos e bolsos, formas e tamanhos, desde a mundialmente famosa Stolichnaya, passando por exemplos mais sofisticados como a Beluga. De origem ainda incerta, é um destilado de cereais, principalmente trigo, centeio e cevada, mas há vodcas elaboradas a partir de arroz e batatas. Considerada a bebida nacional de russos e poloneses, foi já em tempos da extinta União Soviética que se popularizou.

A importância da vodca é tamanha, que existe até um museu inteiro dedicado a ela.

À esquerda, estou na entrada do Museu da História da Vodca em Izmailovo, nos arredores de Moscou, onde é possível encontrar também copos de vodca em embalagens oneway (http://www.vodkamuseum.ru/)

No alto, estou na entrada do Museu da História da Vodca em Izmailovo, nos arredores de Moscou, onde é possível encontrar também copos de vodca em embalagens oneway (acima)

Lá encontrei vodcas em muitas versões diferentes. Além da tradicional, que é maravilhosa, adorei esta versão “temperada” da nobre vodca Beluga.

A vodca Beluga Hunting Berry

A Beluga Hunting Berry é uma versão incrível de vodca, com mirtilo vermelho, canela, anis e flor de tília. Degustei no Massimo Café, em Volgogrado.

A vodca Beluga Hunting Berry, com a tradicional ushanka russa

Nos restaurantes e bares há uma infinidade de drinques diferentes. Um muito comum por lá é o Moscow Mule (foto abaixo), aqui conhecido como o drinque da canequinha, pois geralmente é servido em uma caneca de cobre. E se engana quem acha que ele tem origem na mãe terra: não! A origem remonta a meados do século passado, na famosa Ilha de Manhattan, em Nova York, ou seja, em terras do Tio Sam. Elaborada com vodca, cerveja de gengibre e suco de limão, refresca no verão e aquece no inverno.

Encontrei em Moscou uma versão do drinque com vinho, no lugar da vodca: o Moscow Wine, bem mais a minha cara!

Moscow Wine: uma variação do drinque Moscow Mule

E você, já esteve na Rússia e provou alguma destas bebidas? Conta pra gente a sua experiência!

Um brinde!

*Lucia Grimaldi, colunista do Que Gostoso!, é graduada e pós-graduada em fonoaudiologia e direito e possui a certificação internacional Wine & Spirit Education Trust (WSET) nível 2. Contatos: grimaldipervino@gmail.com e o instagram @grimaldipervino

Um comentário sobre “Brindando com V: viagem, vinho e vodca

  1. A colunista nos transportou para a Rússia!
    Com uma cultura tão diferente da brasileira é natural que também as bebidas sejam diversas, mas é muito interessante ver essas peculiaridades expostas aqui, no Que Gostoso.

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