Lubbenau - Alemanha - 2017 - 2 - Foto Claudio Schapochnik - QueGostoso

Cidade alemã atrai com canais e picles de pepino

por Claudio Schapochnik_Lübbenau/Spreewald/ALEMANHA

No Estado de Brandemburgo, no Leste da Alemanha, há uma cidadezinha incrível para visitar e provar um produto certificado de lá. Estou falando, respectivamente, de Lübbenau/Spreewald, mas que você também pode falar apenas o primeiro nome, e do pepino Spreewald, que possui o selo de Indicação Geográfica Protegida da União Europeia e o logo da marca Spreewald. Tudo isso faz com que uma visita à cidade seja um misto de um passeio bucólico muito bacana e uma experiência gastronômica com o pepino (gurke, em alemão) — sozinho ou com outros tipos de vegetais, temperos e formas de apresentação. É uma excelente dica para quem quiser viajar quando a pandemia de Covid-19 acabar.

Visitei Lübbenau em 2017, com o meu querido amigo e irmão alemão Jan Kummer. Naquele ano estive na Alemanha após uma viagem super bacana à pouco conhecida Belarus. Motivo: celebrar os 30 anos de amizade com o Jan, que nasceu, vive e trabalha em Dresden, a capital do Estado alemão da Saxônia, também é jornalista, fala português fluente e é um apaixonado pelo Brasil e pela cultura brasileira.

No alto turistas navegando nos barcos em um dos canais em Lübbenau e, acima, porção de pepinos curtidos (picles) e certificados com o selo “Spreewälder Gurken”: deliciosos (fotos Claudio Schapochnik/Que Gostoso!)
Em Dresden, eu e o Jan Kummer celebrando 30 anos de amizade no Schillergarten, restaurante e cervejaria à beira do rio Elba (foto Grit)
No mapa do país europeu, a localização de Lübbenau/Spreewald no Estado de Brandemburgo (© Wikipedia)
O brasão de armas de Lübbenau/Spreewald (© Wikipedia)

IDIOMA DIFERENTE
Eu e o Jan saímos de Dresden para visitar Lübbenau. Fomos de carro, e a viagem levou cerca de 1h30. Dá para ir de trem, mas tem de fazer conexões. De carro, desde a capital alemã, Berlim, dá perto de 1h.

Velocímetro do carro do Jan na ida para a cidades dos canais e pepinos: com emoção
Uma das casas ao longo dos canais

Na estrada alemã, a uma velocidade impraticável nas rodovias no Brasil, 200 km/h em muitos trechos, vi as placas anunciarem a proximidade e a chegada a Lübbenau/Spreewald e também a Lubnjow/Błota. Esta segunda denominação é o nome da cidade em uma língua de origem eslava — o baixo sorábio ou o baixo sórbio —, escrita no alfabeto latino. Achei muito parecida com o polonês. Ou seja, séculos atrás não era a cultura e o idioma germânicos dominantes naquele território.

Mas, ainda hoje, há uma minoria alemã descendente daquele povo eslavo que colonizou a região séculos atrás e que fala o baixo sorábio ou o baixo sórbio e mantém suas tradições. Que interessante!

Propaganda de cerveja da cidade
Venda de artigos em cerâmica nas proximidades de um restaurante

NAVEGAÇÃO PELOS CANAIS
A primeira menção documentada da cidade data do século 14, mas escavações ocorridas atestam que a cidade pode ter sido fundada no século 8 ou 9.

O município tem hoje menos de 20 mil habitantes, e o turismo e a agricultura têm pesos importantes na economia local.

Talvez a atração mais visitada de Lübbenau seja o conjunto de canais rasos e navegáveis, tombada pela Unesco como Reserva da Biosfera. Esse lugar ímpar é chamado de Spreewald, a mesma palavra do nome composto da cidade alemã. Os passeios ocorrem apenas entre de abril e outubro.

A navegação turística é feita em barcos de madeira chamados pela palavra germânica “kahn”. A capacidade varia, pois há kahns para mais e menos pessoas. Cada barco tem o seu barqueiro, chamado em alemão de “kahnfährmann”, que o dirige com um remo de 4 metros de comprimento. Trata-se do rudel, no idioma alemão.

Turistas alemães navegando pelos canais de Spreewald
Um simpático pato acostumado aos visitantes na Reserva da Biosfera da Unesco
Outra residência à beira de um dos canais: todas as casas por lá são habitadas

As saídas partem de cinco portos, e há várias rotas, mais curtas e mais longas. O barqueiro também é guia de turismo e fala durante a viagem. Fala em alemão, e o Jan me traduzia.

Eu e o Jan fizemos uma das rotas mais longas. O barqueiro movimenta calmamente o barco. É um passeio de experiência e admiração das margens dos canais. E o que há por lá: canais limpos; aves; muitas, muitas árvores; belas casas e pousadas de madeira; restaurantes; venda de artesanato; e muito pepino curtido no vinagre com especiarias e outros ingredientes (picles), como alho por exemplo.

Jamais imaginaria um lugar tão lindo e diferente. Jamais tinha ouvido falar em Lübbenau/Spreewald e menos ainda em Lubnjow/Błota. Foi uma surpresa sensacional! Realmente uma Alemanha diferente de tudo o que já conheci daquele país do qual sou fã.

Suvenir bem típico da região
Eu tomando uma cerveja antes do almoço (foto Jan Kummer)

PEPINO CERTIFICADO
Outra especialidade local vem da terra e é ligada à gastronomia. Trata-se do cultivo de pepinos certificados com o selo de Indicação Geográfica Protegida da União Europeia. Esses vegetais recebem o nome “Spreewälder Gurken”. Assim como o vinho espumante produzido somente na região francesa da Champagne é que recebe o nome de champagne, os pepinos cultivados em Lübbenau/Spreewald são os únicos que podem ser denominados de “Spreewälder Gurken”.

A chegada dos pepinos à cidade se deu no início do século 16 e tem a ver com os holandeses. A explicação é do site da Krügermann, agroindústria que cultiva e processa o vegetal na cidade desde 1896.

“Em 1505, os condes de Schulenburg, uma antiga família da região de Brandemburgo, tornaram-se os proprietários de Lübbenau. Eles conheceram a tecelagem em uma viagem à Holanda. Na esperança de fazer bons negócios com este ofício em Lübbenau/Spreewald, os nobres trouxeram fabricantes de tecidos holandeses para estabelecer o ofício na cidade alemã. Mas a fabricação de tecidos não avançou. Como resultado, os holandeses não tinham renda e viviam em grande pobreza. Vagamente baseado naquele ditado ´A necessidade torna você inventivo´, foram feitas tentativas para remediar essas deficiências.

Embora o cultivo do pepino ainda fosse completamente desconhecido em Spreewald, essa tradição foi mantida na Holanda por muito tempo. Assim, na bagagem dos fabricantes de tecidos também havia sementes de pepino, originalmente para cultivo para consumo doméstico. Para sobreviver, eles cultivavam pepinos comercialmente. O vegetal encontrou as melhores condições de cultivo em Spreewald e assim começou o cultivo tradicional do pepino na região. O pepino local alcançou uma reputação internacional nos séculos que se seguiram.”

Embalagem da Krügermann, agroindústria que produz os picles de pepinos e de outros vegetais
Os dois selos que garantem a proteção ao pepino cultivado em Lübbenau/Spreewald (reprodução da internet)
Quarto de pousada junto aos canais em antigo barril de madeira
Alemãs de origem eslava conversam na área dos canais

GOSTOSO DEMAIS
Amo pepino em conserva, e provei os autênticos “Spreewälder Gurken” no passeio pelos canais da cidade. A cada trecho navegado, o barqueiro faz uma parada num deque onde há vendedores de pepinos com os quais têm acordo. Foi assim que comprei uma porção de picles local.

Nossa, o sabor é extremamente agradável e suave. Foi muito bom comer aquela porção vendo as belezas pelos canais. Custou baratinho, algo como um dois dois euros.

E a criatividade por lá não tem limites. Há picles de pepino com os mais variados ingredientes. Vide, por exemplo, a linha de produtos da Krügermann. Nos restaurantes por lá, o Spreewälder Gurken reina em porções também e nos pratos alemães. O pepino pode ser ainda saboreado com uma boa cerveja — afinal, você está na Alemanha.

Não tenho certeza, mas creio que comprei alguns vidros de pepino pra trazer ao Brasil.

Passeio de barco é imperdível

Bem, o passeio canais mais pepinos vale demais. Super recomendo e até pretendo voltar.

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