por CLAUDIO SCHAPOCHNIK_Izmir/Turquia
Um dos melhores pontos para ver um amplo panorama de Izmir, a terceira maior cidade turca em número de habitantes – depois de Istambul e da capital, Ancara –, fica no alto do antigo bairro judaico chamado Karataş – fala-se Karatash, pois o ş tem som de sh.
Para ir ao mirante no alto de Karataş, o custo é zero e a viagem leva, sei lá, cerca de dois minutos. Graças ao Asansör (elevador, em turco), um dos cartões-postais da cidade. A obra foi inaugurada em 1907.


A rua (Sokağı, em turco) que leva à entrada do elevador tem o nome do músico judeu turco Dario Moreno (1921-1968). Lá está a casa onde ele viveu parte de sua breve vida.
No decorrer da via de cerca de 200 metros há interessantes cafés, bares e lojas de artesanato e lembranças.
Vale demais o passeio pré-elevador.


UMA DÉCADA DEPOIS
Foi minha segunda vez nesse cartão-postal de Izmir – Esmirna, em português, mas prefiro o nome original. A primeira vez foi em outubro de 2014. Portanto, voltei à atração e à cidade dez anos depois.
Se na primeira vez apreciei a vista sozinho, nessa estava acompanhado por duas pessoas muito especiais: minha esposa, Mirella, cuja avó materna nasceu em Izmir; e o primo dela – e que passou a ser meu primo também –, Besim.

Besim nasceu em Izmir e é um excelente guia de turismo profissional – talvez o único na cidade que fala português fluente e com acento brasileiro.
Ele também domina, obviamente além do turco, outros idiomas como o inglês e uma língua bastante particular – o ladino.
Não. Não escrevi errado, pensando em digitar latino.

A EPOPEIA DO LADINO
O ladino tem tudo a ver com Turquia, Izmir e Karataş. É o nome do idioma, também conhecido como djudeo-espanyol, nascido no que é hoje a Espanha e criado pelos judeus que viviam lá, sefaraditas. Sefarad significa Espanha em hebraico.
Bastante semelhante ao espanhol – mas não igual –, tanto na escrita com o alfabeto latino quanto na pronúncia, o ladino “desembarcou” no Império Otomano a partir do final do século 15.
Motivo: em 31 de março de 1492, os reis espanhóis expulsaram os sefaraditas. Grande parte buscou refúgio nos territórios do Império Otomano. Izmir foi uma das cidades que recebeu um grande fluxo dessa população.

CONSTRUTOR DO ELEVADOR
Os descendentes dessa imigração estão presentes até hoje na Turquia. Cidadãos turcos de fé judaica, falam o turco e muitos deles também o ladino.
Um desses descendentes tem absolutamente tudo a ver com o elevador: Nissim Levy Bayraklı ou Bayraklıoğlu (Izmir, 1849 – Paris, 1926). Foi ele quem simplesmente bancou a construção!
Muito rico e filantropo, Bayraklıoğlu financiou a obra para acabar com o sofrimento da população que vivia em Karataş – com grande porcentagem de origem judaica à época.

Sofrimento sobretudo daqueles com dificuldades de locomoção, idosos, grávidas, mães com bebês e crianças pequenas e pessoas em geral carregando pesadas sacolas, que tinham de subir uma longa escadaria – ainda existente por lá – para alcançar suas casas.
O acesso era pago, porém com um valor simbólico para que todos pudessem utilizá-lo. A renda da bilheteria do elevador foi um dos recursos básicos de financiamento do Hospital Judaico de Karataş, que iria ser erguido no terreno de uma das mansões que Bayraklıoğlu doou à comunidade. A informação é do site da Izmir Jewish Heritage.
Quando o elevador passou para a administração do município, o acesso passou a ser gratuito.
Antes de voltar ao tema do café…

ATATÜRK E A REFORMA DO IDIOMA
Sim, o sobrenome Bayraklıoğlu é muito difícil de se falar corretamente para quem não domina o turco.
Repare que há um i sem ponto, ı, e um g com acento, ğ. Besim me ensinou as duas pronúncias, mas já me esqueci. A mais difícil é do ı. Asseguro que não tem nada a ver com o i.
Agora imagina o turco antigo, chamado turco otomano… Sabia que o mesmo era escrito com o alfabeto árabe? E que a maior parte das palavras tinha origem árabe e persa?

Para ficar milhões de vezes mais acessível ao povo turco, o então presidente turco Mustafa Kemal Atatürk (1881-1938) realizou em 1928 uma profunda reforma: adotou o alfabeto latino e modernizou o idioma.
Por isso e vários outros motivos, Atatürk é bastante respeitado na Turquia.

VISTA E CAFÉ
O elevador transporta as pessoas a uma altura de 51 metros de altura. Pode ser pouco mas, asseguro, lá do alto no mirante a vista de Izmir é abrangente e vale a pena observá-la.
Caso você queira mais conforto – físico e alimentar –, a dica lá em cima é se sentar em uma das mesas perto da janela do Terrace Cafe para ter (quase) a mesma vista.
O Terrace Cafe, o salão para eventos Ceneviz Salonu e o Asansör Restaurant formam um complexo gastronômico. Cada espaço é independente.
A construção desse espaço ocorreu quando da restauração do elevador pela municipalidade, em 1992. Assim como o meio de transporte, tudo é administrado por uma empresa da Prefeitura de Izmir.


Naquela manhã de outubro de 2024, Besim pediu algo para comer e beber no Terrace Cafe. Dessa forma que conheci o local.
O cardápio tem, entre outras opções, cafés, chás, refrigerantes, água e sanduíches.
O atendimento é cortez, e os funcionários também falam inglês. Os valores não são altos.
Super recomendo o Terrace Cafe. Vale muito a pena “viajar” com o olhar através do vidro pela paisagem de Izmir.
Para mais informações do Terrace Cafe, clique aqui.