por CLAUDIO SCHAPOCHNIK_Kyiv/UCRÂNIA
Em 2013, portanto há quase dez anos (!), visitei a Ucrânia com propósitos genealógicos, no caso do lado do meu falecido pai, Edison. A viagem naquele país do Leste Europeu começou pela capital, Kyiv, em ucraniano — mais conhecida por Kiev, em russo —, onde fiquei alguns dias. Lá tirei o crucial visto para visitar, depois da Ucrânia, o país vizinho Moldova — naquela época era necessário visto de entrada para brasileiros. Neste período, creio que no mês de agosto, fiquei hospedado no excelente hotel Intercontinental e turistei pela cidade, que gostei muito. Andando pra lá e pra cá e com conhecimentos mínimos do alfabeto eslavo e dos idiomas ucraniano e russo, descobri o Bessarabski Rinok (Mercado Bessarabiano, na língua local). Pra quê!? Encontrei minha Disney gastronômica e fiquei um tempão passeando por lá.



No meu planejamento não havia pesquisado sobre o Mercado Bessarabski. Então quando “o descobri” foi uma alegria imensa pois o edifício remete à Bessarábia — território que pertenceu ao Império Russo e à Romênia, integrou a URSS e conquistou a independência em 1991 como República Moldova.
Bessarábia onde nasceram meus avós paternos, Jayme e Sarah. Daí minha alegria imensa ao conseguir ler em cirílico o nome do mercado, que remeteu ao avô e à avó queridíssimos. Jayme nasceu em Bălți (fala-se algo como Beltsy) e Sarah em Nov Séleds (ou Novo Sulitsa). A cidade da vovó, no entanto, foi tomada junto com outras ao Norte da Bessarábia e entregue pelos soviéticos à Ucrânia.
Na face voltada para a cidade, há alguns bares e restaurantes pequenos. Por dentro, uau, o lugar é grande, muito grande.



Caminhei pelos corredores entre as bancas. O assédio comercial, comum em vários congêneres pelo mundo, ocorreu também. Ainda que falado em russo ou ucraniano, as mulheres, sim, eram majoritariamente vendedoras, me diziam algo como “Ei, vem cá! O preço é bom!” e “Quer levar frutas? Aqui são frescas!”
O que mais queria era provar algumas coisas e fotografar, fotografar bastante. Provar não consegui, mas fiz muitas fotos na medida do possível.
Vi ainda frutas bem típicas da Europa e de lugares frios, muita carne de porco (os eslavos em geral apreciam muito carne suína), peixes secos e legumes em conserva. Que gostooooooso!


Na minha estada em Kyiv, geralmente, jantava no quarto do hotel com produtos comprados nos mercados durante o dia. Então no Bessarabski comprei o jantar daquele dia.
Parei em frente à uma barraca que vendia vários tipos de vegetais em conserva. Havia pepino, berinjela, alho, tomate etc. Lembro que comprei duas conservas, sendo uma de berinjela e a outra, talvez de pepino. Recordo que a vendedora ficou feliz de ter parado na banca dela — ela sabia que era um turista, um estrangeiro.
A simpática vendedora colocou os dois potes numa sacola, paguei e pedi autorização para tirar fotos. Ela falou algo sorrindo estendendo o braço. Não precisou de tradução…
À noite comi as conservas com pão preto e refrigerante ou cerveja no meu quarto no hotel. Que gostooooooso!
Depois dessa volta, creio que comi um kebab num desses pequenos restaurantes localizados na parte externa do mercado.
O Mercado Bessarabski abre diariamente das 6h às 22h.


EDIFÍCIO É DE 1912
A construção, do estilo do modernismo tardio, começou na Praça Bessarabskaya, no centro da cidade em 1910. De acordo com o site oficial do mercado, o dinheiro para a grande obra foi doado por uma das pessoas mais ricas do então Império Russo, magnata do açúcar, patrono das artes e filantropo, Lazar Brodsky. Ele, de família judaica, nasceu no shtetl (cidadezinha, no idioma iídiche) de Zlatopol, na Província de Kiev, em 1848, e morreu em Basileia, na Suíça em 1904.
Brodsky contratou o arquiteto polonês Heinrich Guy, e a construção levou dois anos. A inauguração ocorreu em julho de 1912.


Segundo o site oficial do mercado, o Mercado Bessarabski estava equipado com a mais recente tecnologia. “Nos porões foi instalada a unidade de refrigeração, a primeira em Kiev e a terceira no Império Russo”.
“A fachada do edifício foi decorada com baixos-relevos e esculturas, e acima da entrada principal foi colocado o baixo-relevo do Arcanjo Miguel, o defensor da cidade de Kiev.”


CENTRO CULTURAL
Após o almoço, também sem saber previamente, conheci o Pinchuk Art Centre. É um dos lugares mais cool da capital ucraniana. O centro cultural fica em frente ao Bessarabski e vale muito a pena conhecê-lo. É uma instituição privada e pertence ao empresário, patrono das artes e filantropo, Viktor Pinchuk. Ele nasceu em 1960, em Kyiv, numa família judaica.
O Pinchuk Art Centre foi aberto em setembro de 2006. Segundo o site da instituição, “é um dos maiores e mais dinâmicos centros privados de arte contemporânea da Europa Central e Oriental”.
O centro ocupa várias casas geminadas com salas de exposições, uma biblioteca, uma sala educacional, uma livraria, uma sala de vídeo e um café. A área total do centro de arte é superior a 3.000 m². Funciona de terça a domingo, das 12h às 21h. Entrada grátis.
Ou seja, praticamente num mesmo lugar dá para conhecer dois lugares icônicos de Kyiv: o mercado e o centro cultural. Super recomendo ambos. E, no mercado, compre potes de conservas e/ou de frutas. Que gostooooooso!

GUERRA A CAMINHO?
Quando visitei a Ucrânia, em 2013, não imaginava que a partir do ano seguinte as coisas por lá iriam mudar bastante. Atualmente a crise que começou em 2014 pode desembocar numa invasão da poderosíssima vizinha Rússia e, consequentemente, o início de uma guerra. Espero que isso não aconteça, espero que a diplomacia e a paz prevaleçam.
Desde 25 de fevereiro de 2010, o presidente do país era Víktor Yanukóvytch. Foi um defensor de um alinhamento maior ainda com a Rússia, portanto, contra a entrada da Ucrânia em organismos ocidentais como a União Europeia e a Otan, a aliança militar do Ocidente.
Depois de 93 dias de protestos contra essas bandeiras acima e também contra a corrupção, Yanukóvytch caiu em 22 de fevereiro de 2014. Desde então vive exilado na Rússia.
Yanukóvytch foi substituído interinamente por Oleksandr Turtchynov, que ocupou o cargo até maio daquele ano — mês da eleição presidencial que elegeu Petro Poroshenko.
No começo do governo de Poroshenko (2014-2019) iniciaram dois grandes levantes nas Províncias de Donetsk e Lugansk, ambas no Leste do país e povoadas por uma maioria de ucranianos de etnia russa. Eles proclamaram a República Popular de Donetsk e República Popular de Lugansk, com apoio da Rússia, que passou a apoiá-los inclusive com armamentos.

Começava aí o conflito armado no Leste da Ucrânia que se prolonga até hoje, com milhares de mortes, entre o Exército ucraniano e as milícias ucranianas pró-Rússia que, inclusive, querem a anexação desses dois territórios à nação vizinha. Vale lembrar que a Península da Crimeia já havia sido anexada à Rússia ainda em 2014.
Eleito em 2019 com apenas 41 anos e atual presidente ucraniano, vindo de uma família judaica e da área artística, Volodymyr Zelensky conduz com outros líderes europeus e os Estados Unidos as conversações com o presidente russo, Vladímir Putin, para evitar a guerra. Que assim seja.
Talvez esta seja a maior crise no país desde a Grande Fome (1932-33) e a Grande Guerra Patriótica (1941-1945, como os então soviéticos chamaram a Segunda Guerra Mundial). Pela paz, sempre!
Há de reinar a paz nesse país tão belo!