Julho é o ponto alto da safra do gengibre em São Paulo

DA SECRETARIA DA AGRICULTURA E DO ABASTECIMENTO DO ESTADO DE SÃO PAULO

“O gengibre (foto acima/Brett Hondow/Pixabay) é desintoxicante, muito utilizado na melhora de problemas nas vias respiratórias, além de possuir o gingerol, potente termogênico que ajuda na elevação da atividade metabólica. Essa raiz pode ser acrescentada a sucos, chás, bolos, biscoitos, molhos e diversas outras preparações culinárias, proporcionando mais sabor e maior valor nutricional.” É o que ensina Sizele Rodrigues dos Santos, nutricionista da Secretaria de Agricultura e do Abastecimento do Estado de São Paulo, lotada na Coordenadoria de Desenvolvimento dos Agronegócios (Codeagro/SAA).

Produtores dos municípios de Tapiraí e Piedade, na região de Sorocaba, e de Ubatuba, no Litoral Norte, também descobriram que o gengibre pode ser também uma fonte de renda para produtores rurais. Com mercado cada vez maior, por seu uso em várias preparações culinárias, o gengibre paulista deve voltar a ser exportado de forma mais significativa, segundo Ivanete Borba, presidente da Associação Rural Comunitária de Promoção Humana e Proteção à Natureza, que congrega um grupo de 19 associados, todos familiares, que se dedicam ao cultivo do Zingiber officinale Roscoe, planta originária da Índia e China e que se disseminou pelo mundo, principalmente em países de clima tropical.

A Associação é sediada em Tapiraí, município que detém a marca de maior produtor de gengibre no Estado de São Paulo (51% da produção estadual), seguido pelo município de Piedade (34% da produção estadual), ambos da área de atuação da Coordenadoria de Desenvolvimento Rural Sustentável (CDRS) Regional Sorocaba. Segundo a presidente, que está há quatro anos à frente da organização, é a transição para o sistema orgânico de cultivo e a exportação. “A Secretaria (via extensão rural) muito nos ajudou por meio do Projeto Microbacias II, que possibilitou, em 2018, a aquisição de um veículo utilitário que abriu as portas para o melhor escoamento da produção, com o aumento da área de comercialização; embora grande parte, tanto do gengibre quanto do inhame produzidos, vá para as Centrais de Abastecimento de São Paulo e Sorocaba”, explica Ivanete.

Ivanete explica que a organização, que tem 16 anos de existência, passou a contar também com a assistência técnica do engenheiro agrônomo Cláudio Nadaleto ‒ o qual tem auxiliado o grupo a fazer um planejamento do próprio negócio e da produção ‒ e também procurado capacitações para que venham, posteriormente, em segundo momento, agregar valor ao produto, trazendo novas propostas de investimento no gengibre. “O mais importante é que estamos saindo da ´mão dos atravessadores´, aprendemos muito nos últimos tempos devido às várias capacitações feitas via Sindicato Rural, Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) e passamos a contar com recursos provenientes de políticas públicas. O número de associados também tem aumentado e podemos pensar para o próximo ano na formação de uma cooperativa, para que possamos entrar no mercado de exportação”, afirma ela.

Entre as vantagens do gengibre está a sua capacidade de ´ficar no chão´ esperando um melhor momento para a comercialização. “Vamos fazendo a colheita de forma escalonada, leva de seis meses a um ano para colher, com início em maio até novembro”, conta Ivanete, que é produtora de gengibre, inhame e olerícolas em geral, na Serra de Paranapiacaba, onde está situada a maior região produtora de gengibre no Estado (70 toneladas anuais). Cada produtor da Associação destina, em média, 1,5 ha da propriedade para o cultivo de gengibre, sempre aliado a outras culturas. “O gengibre é uma poupança guardada embaixo da terra”, ensina a produtora, portanto, uma boa alternativa, já que há bastante mercado devido às suas qualidades para a saúde e ao uso disseminado em várias preparações culinárias.

Gengibre tem vários usos na gastronomia (foto Gate74/Pixabay)

A Casa da Agricultura e os produtores do município são atendidos pela CDRS Regional Sorocaba, explica o engenheiro agrônomo Caetano Mainine, da Secretaria de Agricultura e do Abastecimento. “Os produtores de gengibre estão otimistas, pois conseguiram, mesmo nesses tempos de pandemia, se organizar e fazer entregas diretas para um projeto da Fundação Banco do Brasil, que distribuiu cestas de alimentos em algumas regiões do Estado para famílias em vulnerabilidade”, diz ele.

Mainine conta que o gengibre é bem característico de pequenas propriedades, alguns, devido à declividade da Serra, ainda fazem o plantio usando tração animal. No geral, são pouco tecnificados, vários estão partindo para o cultivo orgânico, embora já façam uso de um plantio sustentável, sem significativo uso de defensivos. Porém existem também grandes produtores, com cerca de 50 ha de cultivo, que se dedicam a atender não apenas ao comércio local, mas também à exportação. “Goiás e Espírito Santo figuram entre os maiores produtores, porém há espaço para quem quiser ter essa alternativa de renda; trata-se de uma boa alternativa, com mercado em expansão”, explana o técnico da Secretaria.

O ponto alto da safra é em julho, mas já começam a colher o rizoma a partir de março. “Conforme se acumulam sólidos solúveis, o gengibre vai atingindo a maturidade fisiológica, com isso passa a ter maior valor no mercado e maior tempo de prateleira”, ensina Mainine. Nesta época do ano, de festas juninas (mesmo que em casa), o gengibre costuma ser bastante lembrado por ser utilizado no preparo do quentão, nos chás de inverno e também por favorecer a imunidade em tempo de gripes, resfriados e, este ano em especial, de Covid-19. As folhas da planta também passaram a ser utilizadas na alimentação como Plantas Alimentícias Não Convencionais (Pancs), um outro nicho de mercado que vem se abrindo e que permite o uso integral da planta, parte aérea e caule.

LITORAL NORTE FOI O PRECURSOR DO GENGIBRE NO ESTADO DE SÃO PAULO
“O gengibre é um caso muito peculiar de eficiência da agricultura familiar em pequenas propriedades. Com uma produção média, um hectare de gengibre produz de 30 a 40 toneladas, porém tem potencial para produzir 100 toneladas por hectare”, confirma o engenheiro agrônomo Antônio Marchiori, extensionista da Secretaria de Agricultura e do Abastecimento, hoje aposentado, mas que marcou toda sua carreira no Litoral Norte de São Paulo, em especial Ubatuba, onde comandou a Casa da Agricultura local. Segundo Marchiori, há grande capacidade de os pequenos produtores direcionarem a sua produção para exportação. Ubatuba foi um dos municípios pioneiros no cultivo dessa planta no Brasil e já exportou muito gengibre.

Quem relembra é a dona Anne Yoriko Kamiyama, conhecida por produzir e processar o gengibre em sua propriedade e ser um marco na região. “No início, nós éramos 26 produtores de gengibre, mas a fusariose levou muitos a desistirem do cultivo. No litoral temos vários problemas com enchentes e isso foi fatal para a cultura; com as enchentes ocasionadas pelo assoreamento dos rios e riachos, vêm as doenças, então o cultivo ficou delimitado apenas nas partes mais altas do município”, conta a produtora, que já há algum tempo voltou seu foco para o turismo rural e ecológico, com trilha de 1,5 quilômetros na Mata Atlântica para o turismo de aventura. Quem se aventurar, ainda poderá, ao final da expedição, adquirir os mais variados produtos feitos à base de gengibre, os quais são processados pela equipe de dona Anne, composta de três funcionários fixos e outros diaristas para as épocas de maior necessidade.

Chá de gengibre (foto Congerdesign/Pixabay)

Muito gengibre foi exportado, desde o final da década de 1970 até 2009, quando houve a mudanças de rumo dos negócios para o turismo rural. “Tivemos sempre muito apoio do então extensionista da Secretaria, Antônio Marchiori (hoje aposentado e atual presidente da Associação Paulista de Extensão Rural), que inclusive montou os experimentos, ou seja, a parte prática, base de suas teses de mestrado e doutorado, em nossa propriedade. O Marchiori foi um grande incentivador do gengibre na região; aliás, o gengibre de Tapiraí teve sua base no gengibre de Ubatuba, fomos pioneiros no plantio no Estado de São Paulo e muito foi produzido e exportado nas décadas de 1970, 1980 e 1990”, conta dona Anne, salientando que “a primeira exportação do País foi feita por meio da antiga Cooperativa de Cotia, que reuniu vários cooperados para montar o primeiro lote para exportação que se destinava aos Estados Unidos, ao Canadá, à Europa e aos países árabes. China e Japão vieram posteriormente”, relembra a produtora.

Outro pioneiro no cultivo do gengibre orgânico foi Amarildo Pazelli, produtor de gengibre em Ubatuba há mais de 30 anos. “O grande diferencial do gengibre de Ubatuba é que, hoje, dominamos as formas de produção orgânica. Tivemos apoio da extensão rural da Secretaria e, hoje, tenho orgulho de dizer que, com práticas orgânicas, o gengibre de Ubatuba consegue ter um padrão de qualidade melhor do que o gengibre produzido da forma convencional”, afirma Amarildo.

Segundo Marchiori, o gengibre tem um aspecto muito interessante, que é o seu melhor desenvolvimento em condições de meia-sombra. Os estudos realizados por ele em Ubatuba, usando técnicas de cultivo orgânico, mostraram que a planta tem grande potencial para o cultivo em sistemas agroflorestais de base agroecológica, ideal para a preservação ambiental, grande preocupação do extensionista, que veio a direcionar todo o seu trabalho em extensão.

Porém, este ano, as chuvas castigaram sua produção, houve perda total na área destinada ao cultivo orgânico, que é de 1 ha e costuma somar em torno de 40 toneladas de rizomas graúdos para preparo de doces e conservas. “Já os miúdos, que são usados no processamento de xaropes, licores e pó de gengibre, chegam a 70 toneladas anuais. Os meses de colheita são junho e julho; em agosto e setembro estamos novamente plantando, o ponto ideal para colheita é em torno de dez meses pós plantio. Uso toda a produção, convencional e orgânica, no processamento”, diz dona Anne, voltando a frisar que o turismo rural e ecológico tem sido o seu foco de atuação, principalmente depois de vir a contar, também, com a parceria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que montou uma base para pesquisas em geografia e geologia em suas terras, elevando ainda mais o potencial para o turismo rural. Um pouco deste trabalho pode ser visto acessando o www.gengibredeubatuba.com.br.

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