Rumo ao Alentejo: uma joia no meio do caminho

por Lucia Grimaldi*

Olá internautas amantes do vinho! Hoje vou contar uma agradável e inesperada surpresa que tive no caminho do Alentejo, em Portugal, quando fui visitar as vinícolas Cartuxa e Esporão, que serão temas dos próximos textos.

O caminho para o Alentejo é cheio de pitorescas surpresas. Uma delas são os inúmeros ninhos de cegonhas brancas que podemos avistar nos postes de energia elétrica ao longo da estrada. Uma pena não podermos parar para fazer uma imagem melhor, mas a foto abaixo dá uma ideia do que estou falando.

Postes de energia elétrica com os ninhos das cegonhas (fotos Lucia Grimaldi)

Seguindo em direção ao Alentejo, é possível avistar também diversos sobreiros, árvores da família do carvalho, dos quais é extraída a cortiça. Portugal é o maior produtor de cortiça do mundo. O primeiro descortiçamento, como é chamada a retirada da casca do tronco que produzirá a cortiça, é realizada quando o sobreiro completa 25 anos de idade. Os demais descortiçamentos são realizados a cada nove anos, sendo que o sobreiro produz cortiça de boa qualidade por cerca de 150 anos. O tronco descascado recebe uma marcação, geralmente com o número do ano em que foi feito o descortiçamento. Por exemplo, o número 9 indica que a retirada foi feita este ano (2019). Assim, um novo descortiçamento ocorrerá apenas em 2028.

Bosque de sobreiros…
… os troncos com a marcação do ano da retirada da cortiça

Além disso, o sobreiro, assim como o carvalho, produz um fruto chamado bolota, que serve de alimento para os porcos alentejanos que, por sua vez, servirão de matéria-prima para o famoso e delicioso presunto de pata negra.

Bolotas verdes, ainda no carvalho (foto pt.freeimages.com)
Bolotas maduras, sob o sobreiro (foto pt.freeimages.com)

A cerca de 120 quilômetros de Lisboa, à beira da estrada, quase chegando na linda cidade histórica de Évora, encontramos a Quinta São José de Peramanca (foto no início do texto/reprodução do site).

Com meu filho, em frente à entrada da Quinta São José de Peramanca e…
…detalhe do portão de entrada, arquitetura lusitana muito presente nas vinícolas da região

O nome “Peramanca”, ou pedra-manca, se deve à ocorrência nesta região de grandes pedras de granito que se equilibram de forma peculiar, mantendo uma espécie de “equilíbrio tênue e frágil”. Pera manca significa pedra oscilante ou pouco segura. A impressão é que poderão tombar a qualquer momento. A região ficou conhecida pelo nome de Terras de Peramanca. E o termo “pera” remete à forma arcaica da palavra pedra.

“Pedra manca” na região da Quinta São José de Peramanca (imagem de internet)

Esta peculiaridade fez com que a pedra manca se tornasse um símbolo da Quinta, e sua forma estilizada estampa os rótulos dos seus vinhos.

Vinho Pêra-Grave Reserva tinto 2016, com a pedra manca estilizada no rótulo

Já o nome Pêra-Grave remonta ao início do século passado, quando em 1913 a Quinta São José de Peramanca foi comprada pela família Grave, hoje na quarta geração dirigindo a propriedade, que além da produção vinícola, se dedica à criação de cavalos.

Devido aos compromissos posteriores, não pudemos conhecer o interior da Quinta. Na loja, fui recebida pela simpática Maria, que mostrou os vinhos, comentou sobre a Quinta, as safras premiadas e ofereceu a degustação de quatro rótulos alentejanos . Segundo ela, 2011 foi um ano realmente especial e rendeu excelentes vinhos.

Com a simpática Maria, que nos recebeu na Quinta São José de Peramanca
Vista da simpática loja de vinhos, na entrada da Quinta São José de Peramanca, onde é feita a degustação

Agora, que tal falar um pouco sobre os vinhos degustados? Adianto que são muito bons e fazem valer muito a pena esta parada.

Vinho Pêra-Grave Branco 2018: elaborado com as castas portuguesas arinto, verdelho e alvarinho, estagiou três meses com bâtonnage feita duas vezes por semana. Bâtonnage é uma técnica de vinificação que consiste em mexer as borras (nome dado às leveduras mortas) que se depositam no recipiente em que o vinho estagia, com o uso de uma vara (bâton, em francês). Isto é feito para dar maior estrutura e complexidade à bebida. Senti aromas de frutas cítricas, com notas minerais e amanteigadas na boca. Um vinho fresco, mas com corpo na boca: adorei!

Vinho Pêra Nova Red 2018: é o vinho gama de entrada da Quinta. É um corte das uvas aragonês e alicante bouschet. Aromas e sabores de frutas vermelhas maduras e especiarias, com taninos suaves e toque aveludado

Vinho Pêra-Grave Tinto 2017: elaborado com as castas cabernet sauvignon, syrah, aragonês e alicante bouschet, passou12 meses em barrica de carvalho francês e americano. Apresentou aromas e sabores de frutas negras maduras e chocolate amargo, com notas de madeira, taninos suaves e corpo aveludado

Vinho Pêra-Grave Reserva Tinto 2016: corte das uvas touriga nacional e syrah, estagiou por 18 meses em barricas de carvalho francês e americano logo após a fermentação malolática, que é um processo de vinificação utilizado para suavizar os sabores mais ásperos do vinho, conferindo notas amanteigadas e aveludadas à bebida. Possui aromas e sabores de amoras e ameixas, notas de violeta e madeira, com os taninos bem integrados. Bom corpo e final longo e muito elegante. Foi o meu preferido, ao lado do branco

Vinhos provados na degustação

O vinho Pêra Velha Grande Reserva, elaborado com as uvas syrah e alicante bouchet, é considerado o melhor vinho da Quinta. Estagia 24 meses em carvalho e já recebeu vários prêmios nacionais e internacionais. Pode ser guardado por mais de uma década.

E finalizo este texto com uma poesia, escrita em homenagem ao primeiro cliente da loja, Luis Filipe Grave de Sousa Cabral, em 21 de dezembro de 2007, e que lá está exposta:

Vinho e poesia: harmonização perfeita

Saúde!

SERVIÇO:
Quinta São José de Peramanca
Estrada Nacional 114, sentido Évora – Lisboa, a 5 km de Évora, Portugal
Tel. (+351) 266-785-045
E-mail: peragrave@sapo.pt
www.peragrave.pt

*Lucia Grimaldi, colunista do Que Gostoso!, é graduada e pós-graduada em fonoaudiologia e direito e possui a certificação internacional Wine & Spirit Education Trust (WSET) nível 2. Contatos: grimaldipervino@gmail.com e o instagram @grimaldipervino

4 comentários sobre “Rumo ao Alentejo: uma joia no meio do caminho

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