por CLAUDIO SCHAPOCHNIK_Cavaillon, Luberon/FRANÇA*
O território de Luberon – liberrôn, na pronúncia francesa –, na região da Provence-Alpes-Côte d´Azur, e outras terras do atual Sudoeste da França estiveram sob o domínio da Igreja Católica Apostólica Romana em parte da Idade Média.
No século 14, inclusive, os papas viveram em Avignon. Esse período recebeu o nome de Papado de Avignon. A residência papal ocorreu entre 1309 e 1387. A cidade só foi incorporada à França em 1791.



Entre outros motivos, a mudança dos papas ocorreu por causa do conflito entre o papa Bonifácio VIII e o rei francês Filipe IV e a instabilidade em Roma
Durante o Papado de Avignon, sete papas viveram na cidade: Clemente V, João XXII, Bento XII, Clemente VI, Inocêncio VI, Urbano V e Gregório XI.


“LIBERDADE”
Nessa época, os papas concederam liberdade para os judeus viverem nos territórios da igreja. Mas houve um preço para isso: a comunidade judaica tinha de pagar tributos especiais a Avignon.
Os judeus que viveram sob o Papado de Avignon receberam o apelido de juifs du pape – judeus do papa, em francês.

SINAGOGA QUE VIROU MUSEU
Dentro desse contexto que Cavaillon – cidade de grande porte em Luberon, com cerca de 25 mil habitantes, portanto bem maior que os vilarejos de mil ou menos habitantes – se insere na história dos judeus.
Uma parte crucial dessa herança judaica local pode ser conhecida no Musée Juif Comtadin. O edifício, que pertence ao município, foi tombado como Monumento Histórico em 1924 e atua como museu desde 1963.

ESTILO PROVENÇAL
O museu ocupa as instalações da antiga sinagoga, portanto não é um espaço sacralizado. O atual templo israelita data entre 1772 e 1774. Foi construído em cima das fundações da primeira sinagoga erguida no final do século 15. Em 1494, os judeus conseguiram autorização do Bispo de Cavaillon para a construção. É uma das mais antigas da França.
O prédio de dois andares foi erguido no estilo arquitetônico em voga naquele século 18 na região da Provence: o comtadin, que significa do condado, em francês. Entre outras características, era baseado na simplicidade.

GUETO
A antiga sinagoga fica na Rua Hebraica, num antigo bairro exclusivo para os judeus viverem. Desde 1452 até o final do século 18, a rua e o bairro foram murados. O local nesse período, de fato, passou a ter características de um gueto, com diversas restrições à comunidade judaica.
Em 1791, no contexto da Revolução Francesa, os muros caíram. Avignon, a região de Luberon e outras áreas papais passaram a integrar o território francês.

A sinagoga, centro da vida comunitária, era lugar de oração, escola e padaria. Assim funcionou até o início dos anos 1960, quando foi dessacralizada e virou museu.
Os últimos frequentadores eram judeus de ex-colônias francesas do Norte da África, como Marrocos, Argélia e Tunísia, e descendentes já nascidos na França.

O TOUR
Fiz a visita no museu acompanhado pela minha esposa, Mirella, com a excelente guia Carolina, que demonstrou ter conhecimento das tradições religiosas israelitas e do contexto judaico da história naquela parte da França.
Ter a Carolina como guia foi ainda um privilégio, pois a visita transcorreu em português. Ela é portuguesa e vive em Cavaillon.

NA DIREÇÃO DE JERUSALÉM
A visita começou no primeiro andar, o templo de fato, acessado por uma escada guardada por um portão cadeado.
Foi emocionante estar lá, na minha condição de judeu que honra suas origens e heranças. O local é muito pequeno e simples.
Alguns detalhes, em ferro, são dourados como por exemplo a menorá – o nome em hebraico para o candelabro de sete braços. As cores rosa e branca dominam o ambiente.
Abri as duas portas da antiga Arca Sagrada – “armário” embutido na parede que é voltado para Jerusalém, centro espiritual do povo judeu e capital do Estado de Israel, como ocorre em toda sinagoga.
É dentro da Arca Sagrada, em toda sinagoga em operação, que ficam guardadas os rolos da Torá – o livro sagrado do judaísmo.

Como era de se esperar, não havia nenhuma Torá dentro. Mas, se não me falhe a memória, havia sete sulcos, ou seja, havia espaço para sete rolos do livro.
As portas da Arca Sagrada, para minha surpresa, tinham os Dez Mandamentos escritos em baixo relevo pintado de dourado – cinco mandamentos em cada porta.


No alto, os Dez Mandamentos escritos na parte de trás de cada porta, cinco em cada, do Haron Kodesh (fotos Claudio Schapochnik/Que Gostoso!)
PADARIA
Depois, no térreo – ou rés-do-chão, como se diz em Portugal –, visitei o que era a padaria da antiga sinagoga. Lá ainda está o forno, utilizado para assar a matzá, o pão ázimo judaico, feito apenas de farinha de trigo e água.
O local era ainda utilizado como extensão da sinagoga. Durante o Shabat – o dia do descanso semanal israelita, que começa ao pôr-do-sol de sexta e termina ao pôr-do-sol de sábado –, as mulheres e crianças, que ficavam na padaria, podiam acompanhar as rezas. Como?
O som passava através do piso e, assim, elas podiam ouvir e acompanhar as rezas entoadas pelos homens no andar de cima.
Na maior parte das correntes do judaísmo, homens e mulheres ficam separados durante as rezas nas sinagogas e festas.


Na sinagoga há ainda alguns objetos rituais e livros e, na padaria, algumas lápides escritas em hebraico e francês.
A antiga mikvê, “piscina” usada por judeus e judias para banhos de purificação, fica numa propriedade vizinha ao museu. Também é tombada, mas não pode ser visitada pelo fato de, justamente, estar numa casa particular.


A visita ao museu, que leva cerca de uma hora, foi maravilhosa. Recomendo demais também aos não judeus.
*O QUE GOSTOSO! viajou em Luberon com apoio do Destination Luberon, representado no Brasil pela CC Hotels, e seguro de viagem Intermac
SERVIÇO:
Museu Judaico Comtadin
Rua Hébraïque, Cavaillon, França
Visitas individuais ou em grupo somente com guia – em francês ou inglês
Ingresso: € 7
Para mais informações, como períodos de abertura e horários de visitação, clique aqui