por CLAUDIO SCHAPOCHNIK_Plasencia/ESPANHA*
Enquanto aguardava os demais integrantes do grupo, do qual fazia parte para uma imersão no passado judaico de Plasencia, se encaminharem para o lobby do belo hotel Palacio Carvajal Girón, no centro da cidade, fui dar uma volta na praça e rua em frente ao estabelecimento.
Na praça, chamada de Ansano e sem árvores ou canteiros, há uma enigmática escultura. Na esquina com a rua Trujillo, vi a vitrine da loja com queijo, jamón (presunto cru) e outras delícias típicas regionais. Aí meu olhar, curioso, pois nunca tinha visitado Plasencia antes, bate na calçada e vejo uma placa com um símbolo israelita por excelência – o candelabro de sete braços, a menorá. Acho que “descobri” algo…
Depois o guia de turismo que atendeu o grupo, Ismael, explicou: as placas identificam os locais onde existiam casas de judeus antes da expulsão de 1492. Tudo de acordo com documentos registrados nos arquivos da prefeitura. Portanto, com lastro histórico. Foi dessa forma que comecei a interessante viagem ao passado na cidade que pertence à Comunidade Autônoma de Extremadura e está a menos de 100 quilômetros da fronteira com Portugal.

A rua Trujillo termina na Plaza Mayor, sede da prefeitura, local vibrante e cheio de gente graças a bares, restaurantes, sorveterias e lojas. No período medieval, o lugar era o mercado da cidade e residência de muitas famílias de comerciantes judeus nas casas e nos predinhos ao redor.



Até o final do século 15, ou seja, pouco antes do fatídico ano da expulsão dos judeus da Espanha, essa comunidade chegou a somar 10% da população.
Plasencia foi fundada em 1186, às margens do rio Jerte, pelo rei Alfonso 8° de Castela. É de sua autoria o lema no brasão de armas da cidade, também presente na bandeira do município: Ut Placeat Deo et Hominibus. Traduzido do latim significa Para o Prazer de Deus e dos Homens. Plasencia guarda ainda trechos da antiga muralha.


Nesse mesmo ano de fundação, o nobre autorizou a chegada de judeus. Em 1291 já era a comunidade judaica local foi a mais poderosa da região, tanto economicamente quanto demograficamente. Os sefardíes (judeus-espanhóis) viveram na chamada Judería da Mota, que era demarcada por uma cerca.
Nessa área está o hotel de luxo Parador de Plasencia. O prédio, que pode ser visitado, anteriormente era o Convento de São Vicente Ferrer. O mesmo foi erguido em cima da antiga Sinagoga Mayor da cidade.
O nome do antigo convento vem do frei dominicano Vicente Ferrer (1350-1419), que chegou a Plasencia para também converter judeus ao cristianismo — e foi exitoso na sua missão.


Perto do hotel de luxo, na Praça São Nicolau, fica a imponente igreja consagrada ao mesmo santo. Erguida no século 13, possui estilo tardo-românica ou proto-gótica. Não entrei dentro. O guia de turismo Ismael comentou que em frente ao templo ocorriam tribunais de arbitragem mistos, com a participação de um juiz judeu e um juiz cristão. Iniciativa que demonstrava, sem dúvida, uma convivência de alto nível entre as duas comunidades.
A partir de 1419, os judeus deixaram o território da Mota para se estabelecer em outras partes de Plasencia, como as proximidades da Plaza Mayor e a rua Zapatería.
Plasencia mantém ainda as ruínas do antigo cemitério israelita no bairro de Barrocal. É aberto ao público, mas não fui visitá-lo. Parece ser um local interessante.

GASTRONOMIA: RECEITA JUDAICA E JANTAR
Em relação à gastronomia, conheci uma receita comprovadamente de origem sefardí: a salada zorongollo. “Este prato está no cotidiano da cidade”, disse o guia Ismael.
Segundo ele, trata-se de uma salada apenas com dois ingredientes: pimentões vermelhos (sem pele) com cebola crua. Como tempero leva bastante azeite de oliva (estamos na Espanha, não é mesmo?), além de sal, vinagre e pimenta a gosto.
Pode-se comê-la pura, com pão ou ainda como acompanhamento de alguma carne. Infelizmente não a comi em Plasencia.

Minha mãe, Eva, fazia este prato em homenagem, sobretudo, ao meu pai, Edison. Ah, como ele gostava e comia com gosto… Em casa era servido como entrada, para comer com pão francês. Também passei a adorá-lo. Minha mãe usava ainda, além do pimentão vermelho, o amarelo, e bastante alho cru cortado em lâminas.
Não creio, ouso dizer, que ela soubesse que a receita pudesse ter relação com a cozinha sefardí e não sei como ela aprendeu – agora que liguei os fatos. Com exceção da cebola e do alho, praticamente as duas receitas são iguais. Então posso garantir: o zorongollo é sensacional. Que gostooooooso!
Tive contato com a gastronomia local no restaurante do hotel onde o grupo se hospedou, o Palacio Carvajal Girón, durante o jantar.
Como entrada foi servido salmorejo, receita do Sul da Espanha – tomate batido com migas de pão, alho, azeite, vinagre e sal. Estava fantástico. Que gostooooooso!



Logo após o peixe do dia assado servido com legumes grelhados. Tudo leve e bem saboroso. Que gostooooooso! Para beber, vinho branco excelente e, como sobremesa, sorvete de chocolate. Que gostooooooso!


Para finalizar, estando em Plasencia, que recomendo a visita, preste bastante atenção nas calçadas – claro, com cuidado para não se esbarrar em outros pedestres ou ir para a rua.
SERVIÇO:
Turismo da Espanha
Red de Juderías de España
Hotel Palacio Carvajal Girón
Parador de Plasencia
Bodegas Tiara
*O QUE GOSTOSO! viajou a convite do Turismo da Espanha e da Red de Juderías de España