Embrapa apresenta nova cultivar de pera 2 Foto João Fioravanço Divulgação Embrapa Uva e Vinho

Embrapa apresenta nova cultivar de pera

por Viviane Zanella – EMBRAPA UVA E VINHO

Uma nova alternativa genética para a produção de peras começa a chegar ao setor produtivo. Desenvolvida pela Embrapa Uva e Vinho (RS), a BRS Áurea reúne características de interesse para o cultivo no Sul do País, como adaptação às condições climáticas da região, potencial produtivo, qualidade dos frutos e capacidade de conservação pós-colheita.

É a primeira cultivar de pera desenvolvida pelo programa de melhoramento genético da unidade gaúcha.

A BRS Áurea é resultado do cruzamento entre a pera asiática Hosui e a europeia Abate Fetel, realizado em 2006, em Vacaria (RS). Após cerca de 20 anos de seleção, avaliação agronômica e validação em diferentes condições de cultivo, a cultivar foi registrada no Registro Nacional de Cultivares (RNC) do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), em maio de 2025.

A cultivar BRS Áurea foi apresentada durante a 49ª Expointer, realizada de 29 de agosto a 6 de setembro, no Parque Assis Brasil, em Esteio (RS).

A BRS Áurea combina características de interesse para produtores e consumidores. Nos locais avaliados na região Sul, a cultivar apresentou elevado potencial produtivo, de 25 a 30 toneladas por hectare, e colheita precoce, concentrada em janeiro.

A cultivar também se destaca pela resistência à entomosporiose, uma das doenças mais graves e economicamente destrutivas dessa cultura, e pela menor suscetibilidade à mosca-das-frutas quando comparada à pera Rocha, variedade portuguesa comercializada no País.

Entre as características de interesse para o consumidor estão os frutos médios a grandes e uniformes, com massa entre 145 e 190 gramas. Na maturação, a casca adquire coloração amarelo-alaranjada a dourada, característica que inspirou o nome Áurea. A polpa é branca, crocante, suculenta e de sabor equilibrado.

Embrapa apresenta nova cultivar de pera 3 Foto João Fioravanço Divulgação Embrapa Uva e Vinho
No alto e acima, exemplares do fruto da BRS Áurea (fotos João Fioravanço/divulgação Embrapa Uva e Vinho)

Os frutos da BRS Áurea são uniformes e simétricos, apresentam massa entre 145 e 190 gramas e, quando maduros, adquirem coloração amarelo-alaranjada ou dourada.

O pesquisador João Caetano Fioravanço, da Embrapa Uva e Vinho, um dos responsáveis pelo desenvolvimento da cultivar, afirma que a BRS Áurea é resultado de um trabalho de longo prazo voltado à obtenção de uma pera adaptada às condições brasileiras.

“A BRS Áurea reúne boa adaptação às condições do Sul do País, potencial produtivo e frutos de excelente qualidade. Esses atributos são importantes para estimular a produção brasileira de peras”, avalia Fioravanço.

A cultivar foi testada e validada no Rio Grande do Sul, nos municípios de Vacaria, Bento Gonçalves e Caxias do Sul, e é recomendada para regiões produtoras de pera que apresentem entre 400 e 600 horas de frio abaixo de 7,2° C durante o inverno.

PERA BRASILEIRA SE DESTACA EM UM MERCADO DEPENDENTE DE IMPORTAÇÕES
Uma das características da BRS Áurea é a precocidade de maturação. Nas condições avaliadas, a colheita ocorre predominantemente entre 5 e 20 de janeiro, com ciclo aproximado de 106 dias entre a plena floração e a maturação. A época de colheita permite antecipar a oferta da fruta e pode contribuir para ampliar a janela de comercialização de peras produzidas no País.

Em sistema de alta densidade, com plantas enxertadas sobre o marmeleiro Adams e espaçamento de quatro metros entre filas e um metro entre plantas, a cultivar apresenta produtividade estimada entre 25 e 30 toneladas por hectare.

A combinação entre época de colheita, potencial produtivo e qualidade dos frutos amplia as possibilidades de uso da cultivar em sistemas comerciais. Para uma cadeia produtiva que ainda depende de importações para atender parte significativa do consumo nacional, a disponibilidade de materiais adaptados às condições brasileiras é um dos fatores importantes para o desenvolvimento da cultura.

Embrapa apresenta nova cultivar de pera 1 Foto João Fioravanço Divulgação Embrapa Uva e Vinho
Os frutos da BRS Áurea são uniformes e simétricos, apresentam massa entre 145 e 190 gramas e, quando maduros, adquirem coloração amarelo-alaranjada ou dourada (foto João Fioravanço/divulgação Embrapa Uva e Vinho)

QUALIDADE NA PÓS-COLHEITA
Além do desempenho no pomar, a BRS Áurea mostrou resultados promissores nas avaliações de pós-colheita. Em condições experimentais, as peras permaneceram com boa qualidade para consumo após 90 dias de armazenamento refrigerado a 0,5° C, seguidos de sete dias a 20° C.

Nessas circunstâncias, a firmeza da polpa diminuiu, e os frutos adquiriram coloração mais alaranjada, mantendo características consideradas adequadas para consumo.

Segundo a pesquisadora Lucimara Antoniolli, da área de Pós-Colheita da Embrapa Uva e Vinho, as características de conservação complementam os atributos sensoriais da cultivar.

“A BRS Áurea apresenta propriedades muito interessantes para o mercado de frutas frescas pelo bom potencial de conservação pós-colheita, aspecto importante para ampliar o período de comercialização e facilitar a distribuição da fruta”, enfatiza Lucimara.

Ensaios experimentais também indicaram potencial para períodos mais prolongados de armazenamento. Em atmosfera controlada, frutos mantidos por até 165 dias a 0,5° C apresentaram maior firmeza após a retirada da câmara.

Por outro lado, os frutos são delicados e podem sofrer danos por impacto durante a colheita e o transporte. Por isso, a Embrapa recomenda cuidados no manuseio, na classificação, na embalagem e no transporte.

Embrapa apresenta nova cultivar de pera 2 Foto Fábio Ribeiro Divulgação Embrapa Uva e Vinho
Pereiras da cultivar BRS Áurea, cujo desenvolvimento teve início em 2006 (foto Fábio Ribeiro/divulgação Embrapa Uva e Vinho)

MENOR SUSCETIBILIDADE A DOENÇAS E A MOSCA-DAS-FRUTAS
A BRS Áurea também apresentou características favoráveis em relação a importantes problemas fitossanitários da cultura. Nas condições em que foi avaliada, demonstrou resistência à entomosporiose e à sarna-da-pereira, doença fúngica que afeta folhas e frutos, além de menor suscetibilidade à mosca-das-frutas, em comparação à cultivar Rocha.

Em áreas experimentais onde as duas cultivares foram plantadas e submetidas à infestação natural, foram registrados 70% de frutos infestados na pera Rocha e 10% na BRS Áurea.

Em outro experimento, no qual os frutos foram expostos diretamente aos insetos em condições sem chance de escolha, a infestação também foi menor na BRS Áurea: 40%, contra 100% na Rocha.

O pesquisador Marcos Botton, também da Embrapa Uva e Vinho, aponta que a menor suscetibilidade é uma característica de interesse para o sistema de produção.

“A menor infestação observada na BRS Áurea é uma característica bastante interessante, principalmente considerando a importância da mosca-das-frutas para a fruticultura do Sul do País. Isso não significa que o produtor possa deixar de monitorar e manejar a praga, mas indica uma característica favorável da cultivar que pode contribuir para o sistema de produção”, pontua Botton.

ALTERNATIVA PARA AMPLIAR A PRODUÇÃO BRASILEIRA
A produção brasileira de peras ainda é insuficiente para atender à demanda interna e a disponibilidade de cultivares adaptadas às diferentes regiões produtoras permanece como um dos desafios da cultura.

A irregularidade da produção e a qualidade dos frutos também são apontadas como fatores que limitam a competitividade da produção nacional.

Nesse contexto, a BRS Áurea representa uma nova alternativa genética desenvolvida e validada nas condições brasileiras. A expectativa é que a cultivar contribua para diversificar os pomares e ampliar as possibilidades de produção de pera no Sul do País.

“De todas as diferentes cultivares de pera que já plantei, acredito que a BRS Áurea é a que apresenta maior potencial para a produção competitiva”, avalia Fernando Soldatelli, produtor que participou da validação da cultivar. Segundo ele, a nova pera reúne características importantes para o mercado. “Além de produzir bem, é bonita, suculenta e gostosa. Tudo o que precisamos”, salienta.

Embrapa apresenta nova cultivar de pera 1 Foto Fábio Ribeiro Divulgação Embrapa Uva e Vinho
Em sistema de alta densidade, a cultivar apresenta produtividade estimada entre 25 e 30 toneladas por hectare (foto Fábio Ribeiro/divulgação Embrapa Uva e Vinho)

DISPONIBILIDADE DE MUDAS
As mudas da BRS Áurea podem ser reservadas no Viveiro São Francisco, licenciado pela Embrapa. Outros viveiristas interessados em obter licenciamento para comercializar a cultivar podem solicitar material propagativo à Embrapa Uva e Vinho pelo e-mail cnpuv.spat@embrapa.br. A reserva pode ser realizada ao longo do ano, enquanto a entrega ocorre na segunda quinzena de julho do ano subsequente, de acordo com a disponibilidade de material.

QUASE 20 ANOS DE PESQUISA
O desenvolvimento da BRS Áurea teve início em 2006, com o cruzamento entre as peras Hosui e Abate Fetel, em Vacaria (RS). A partir de 2015, o material selecionado passou por novas etapas de avaliação. No ano seguinte, foi implantado em áreas experimentais da Embrapa Uva e Vinho, em Bento Gonçalves e Vacaria, para análises de fenologia, produção, qualidade dos frutos e conservação pós-colheita.

Em 2021, foram estabelecidas duas unidades de validação em parceria com produtores, em Vacaria e Caxias do Sul. As plantas foram conduzidas sobre o marmeleiro Adams, no espaçamento de quatro metros entre filas e um metro entre plantas.

A BRS Áurea foi registrada no Registro Nacional de Cultivares (RNC), em 26 de maio de 2025, sob o número 59.655, e posteriormente foi solicitada sua proteção junto ao Serviço Nacional de Proteção de Cultivares (SNPC).

A equipe responsável pelo desenvolvimento da cultivar é composta por João Caetano Fioravanço, Lucimara Rogéria Antoniolli, Silvio André Meirelles Alves, Marcos Botton, Luis Fernando Revers, Daniel Santos Grohs, Valtair Comachio e pelo pesquisador aposentado Paulo Ricardo Dias de Oliveira, da Embrapa Uva e Vinho.

Deixe uma resposta