Projeto quer popularizar goiaba-serrana no País

DA EMPRESA DE PESQUISA AGROPECUÁRIA E EXTENSÃO RURAL DE SANTA CATARINA (EPAGRI)

A diversidade biológica do País não cansa de surpreender: a goiabeira-serrana (Acca sellowiana), em plena safra de março a maio em Santa Catarina, é o que vem sendo chamada pelos pesquisadores como a superfruta do futuro, devido às propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. Apesar de nativa do Sul do Brasil, o cultivo comercial da goiaba-serrana (foto acima/Aires Mariga/Epagri) é recente e só foi possível a partir da domesticação da espécie, para o que a pesquisa agropecuária teve papel fundamental. Desde 1980, a Epagri, em parceria com a UFSC, Udesc e agricultores produtores da espécie, vem trabalhado com sucesso para dar uma nova alternativa de renda ao pequeno produtor. Nesses quase 40 anos, já foram lançados quatro cultivares adaptados às condições de clima, solo e relevo do Planalto Serrano Catarinense.

Trabalho similar vem sendo feito há quase um século na Nova Zelândia com excelentes resultados, o que fez daquele país um dos maiores produtores e exportadores da fruta. O destino? Principalmente Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, Holanda, França, Japão e até mesmo o Brasil. “Nossa meta é que os maiores exportadores da espécie passem a ser os países de ocorrência natural dessa mirtácea, como é o caso do Brasil”, afirma o coordenador dos estudos com a fruta na Epagri, Leonardo Araújo, pesquisador da Estação Experimental em São Joaquim (EESJ).

A goiabeira-serrana é adaptada às condições edafoclimáticas das regiões mais frias do Sul do Brasil, como solo, relevo, clima e, por isso, vem despertando o interesse da Epagri e dos fruticultores do Planalto Serrano. Além disso, apresenta outras potencialidades muito bem lembradas por Araújo: os frutos podem ser consumidos in natura ou processados; as pétalas das flores podem ser destinadas ao consumo humano e a beleza da floração permite que a planta seja utilizada para ornamentação.

De fruta encontrada apenas na mata, hoje goiabeira-serrana já conta com 20 agricultores familiares da região que se dedicam à produção em uma área de aproximadamente 12 hectares e uma produtividade registrada de 15 a 20 toneladas por hectare. Os produtores recebem de R$ 4 a R$ 5 por quilo dos frutos in natura, enquanto no mercado ele é vendido no valor de R$ 7 a R$ 10. Mas há quem tenha descoberto outras formas de agregar valor à fruta ao transformá-la em diferentes pratos.

As pétalas das flores são comestíveis e a beleza da floração permite que a planta seja utilizada para ornamentação (foto Aires Mariga/Epagri)

PROCESSAMENTO PARA AGREGAR VALOR
Em São Joaquim, o casal Sabrina e Adriano Costa cultiva a goiaba-serrana desde 2011, mas foi apenas em 2019 que começaram a processar a fruta e ofertar outros produtos como sorvetes, pão, mousse, geleia, compota, chutney e brigadeiro. Eles contam com uma área de um hectare e 800 pés da fruta, que na safra passada chegou a produzir oito toneladas. “Em 2020 esperamos aumentar para 10 toneladas, mas sabemos que temos potencial para chegar a 20”, diz Adriano. Ele cuida do pomar; ela da transformação da goiaba em diferentes receitas.

A goiaba-serrana entrou na vida do casal como uma diversificação das atividades na propriedade, que ainda tem a maçã como cultura principal. Todas as tecnologias da Epagri são aplicadas por eles e por isso o pomar é referência na região. A área está continuamente aberta à visitação de diferentes públicos do mundo todo, de turistas curiosos a pesquisadores.

As frutas são vendidas nos municípios vizinhos e os produtos processados são comercializados em São Joaquim com a marca Goiaba Adrina. O sorvete é feito por uma empresa parceira localizada em Lages, que distribui para toda Santa Catarina. “A aceitação de nossos produtos foi maior do que imaginávamos”, diz Sabrina, que recebeu incentivos de professores do curso de Gastronomia do IFSC/Florianópolis, instituição parceira da Epagri no projeto de pesquisa.

Segundo Sabrina, a ideia de processar a goiaba foi uma saída para aproveitar toda a produção, pois as frutas pequenas não tinham aceitação pelo mercado. “Foi onde me despertou o interesse de encontrar alternativas para elas. O fruto proporciona um leque imenso de novo sabores a serem descobertos.” A agricultora está sempre inventando novas receitas. “Se a preparação não ficar boa, a gente come aqui em casa mesmo”, diz ela. O mais novo desafio é usar a fruta para aromatizar chocolate, o que vem sendo feito por uma empresa em parceria com o casal de produtores.

Além de dar um destino ao fruto que seria descartado, Sabrina descobriu um excelente filão de mercado que ainda não tem concorrência, pois ela é pioneira no processamento da goiaba-serrana. O tempo de prateleira da fruta é muito curto: em câmara fria dura no máximo 21 dias e em geladeira uma semana. Ao processar, a família Costa garante a fruta para consumo durante o ano todo e ainda garante uma renda extra.

O espaçamento recomendado para o plantio é de cinco metros entre linhas e três metros entre plantas (foto Nilson Teixeira/Epagri)
A goiaba-serrana entrou na vida de Sabrina e Adriano Costa como uma diversificação das atividades na propriedade (foto Aires Mariga/Epagri)

CARACTERÍSTICA DA ESPÉCIE NATIVA
A goiabeira-serrana ocorre naturalmente no Brasil em locais de altitude superior a 800 metros, associada à mata nativa nos biomas Mata Atlântica e Pampa. Em toda a região de ocorrência natural da espécie, uma importante característica climática é a amplitude térmica: diferenças de temperatura entre o dia e a noite em torno de 10° C são importantes na formação e intensificação de aromas e sabor de frutos.

A fruta é chamada popularmente por diversos nomes, como goiaba-do-campo, goiaba-do-mato, goiaba-serrana e feijoa, este último derivado do antigo nome científico, Feijoa sellowiana, pelo qual a espécie foi conhecida até o final do século 20. Embora ainda seja usado em diversos trabalhos, o nome correto da espécie é Acca sellowiana.

A espécie foi descoberta em 1856 pelo botânico alemão Otto Berg. Pertence à família Myrtaceae, que possui em torno de mil espécies no Brasil, muitas delas utilizadas economicamente por conta dos frutos comestíveis, como goiaba, pitanga, guabiroba, araçá e jabuticaba. A árvore é de pequeno porte – de dois a dez metros de altura –, mas raramente ultrapassa os cinco metros. Na natureza a árvore cresce bastante, mas para técnica de manejo recomendam-se mantê-la com até dois metros de altura.

O ciclo vegetativo da goiabeira-serrana é bem definido. A brotação inicia em meados de setembro. A floração no Sul do Brasil ocorre no período de outubro a janeiro. A frutificação se dá entre os meses de dezembro e março. Na Serra Catarinense a maturação dos frutos ocorre de março a abril.

A fecundação da goiabeira-serrana é predominantemente cruzada e a polinização é feita por pássaros e não insetos, como é comum em outras frutíferas. Isso se dá no período pós-inverno, quando há escassez de alimentos e as aves procuram as pétalas das flores da goiabeira-serrana, uma vez que elas são carnosas e de sabor adocicado.

Os frutos da goiabeira-serrana são parecidos com os da goiaba comum na aparência, tamanho e textura. São de cor verde, mesmo quando maduros. A polpa é a única parte da fruta consumida in natura. É gelatinosa, de cor gelo, aroma muito intenso e sabor doce-acidulado. O rendimento de polpa varia de 15% a 50%, dependendo da espessura da casca, que muda conforme o tipo de fruto e da variedade.

A polpa também pode ser processada para a elaboração de sucos ou para a produção de geleias, doces em pasta ou de corte, na elaboração de bebidas licorosas e incorporação em sorvetes, sucos, molho ou alimentos processados, bem como na elaboração de espumante, ou simplesmente na elaboração de bebidas de forma artesanal. A parte mais firme junto à casca vem sendo usada por Sabrina para compota, que também usa a casca para chás, depois de desidratada.

A fruta é chamada popularmente por diversos nomes, como goiaba-do-campo, goiaba-do-mato, goiaba-serrana e feijoa (foto Nilson Teixeira/Epagri)
A parte mais firme junto à casca vem sendo usada por Sabrina para produção de compota (foto Aires Mariga/Epagri)

RECOMENDAÇÕES PARA CULTIVO
Para o cultivo da goiabeira-serrana, a recomendação da Epagri é preparar o solo antes da instalação do pomar, visto que é uma cultura perene e, depois de plantada, não possibilita o movimento do solo para incorporação dos corretivos ou adubos. Outra orientação é realizar o plantio no início da primavera, após o preparo da área. O espaçamento recomendado é de cinco metros entre linhas e três metros entre plantas.

O raleio manual é uma prática indicada para obtenção de frutas de alta qualidade e para evitar a alternância de produção. As frutas devem ser raleadas quando apresentarem em torno de 10 a 15mm, deixando-se uma fruta por cacho floral, preferencialmente a maior. Já outros manejos ainda são pouco conhecidos e, por isso, são temas de estudos pela Epagri, pois a goiabeira-serrana é uma cultura relativamente nova e ainda pouco expressiva no Brasil.

Na maioria dos cultivares, a maturação fisiológica acontece entre 120 e 140 dias após a plena floração, quando os frutos apresentam sabor e aroma únicos. A maturação é gradual e pode se estender por um a dois meses e, por conta disso, as frutas, ao contrário do que acontece com outras de clima temperado, não podem ser colhidas em apenas uma ou duas coletas.

A principal dificuldade na determinação do ponto de colheita diz respeito às mudanças quase imperceptíveis que acompanham a maturação, pois a casca dos frutos permanece verde. A colheita da goiaba-serrana requer mão de obra qualificada, pois deve-se ter o máximo cuidado no manuseio dos frutos, que são muito suscetíveis à injuria mecânica. Muitas vezes fruta está perfeita por fora e danificada no interior. Tecnologias para melhorar o trabalho de colheita da goiaba-serrana é outro foco da pesquisa da Epagri.

O sorvete é um dos produtos de grande aceitação pelo mercado (foto Aires Mariga/Epagri)

CULTIVARES LANÇADOS PARA O SUL DO BRASIL
Na década de 1980 a Epagri implantou um programa de melhoramento genético para a goiabeira-serrana. Para isso criou o Banco Ativo de Germoplasma (BAG) da espécie na Estação Experimental da Epagri de São Joaquim, que conta com cerca de 300 acessos, a maioria procedente do Estado de Santa Catarina, mas também com exemplares do Rio Grande do Sul e do Exterior.

A partir do melhoramento genético com esses exemplares, a Epagri lançou quatro cultivares recomendados para a região Sul do Brasil: Alcântara, Nonante, Helena e Mattos. O que mais diferencia um do outro é o período de maturação, permitindo ao agricultor escalonar a colheita.

O Alcântara se destaca pela precocidade de maturação: é o primeiro dos quatro a iniciar a colheita, em meados do mês de março, nas condições do Planalto Serrano Catarinense. Já o Mattos é o segundo a entrar em maturação, em geral na segunda quinzena de março, estendendo-se por cerca de 30 dias.

O Helena tem alta produtividade, porte reduzido da planta, precocidade de produção, bom tamanho e ótima aparência dos frutos. O Nonante também se destaca pela alta produtividade e maturação tardia – a partir da segunda quinzena de abril, podendo se estender por até 30 dias.

Depois de desidratada, a casca pode ser usada para produção de chá (foto Aires Mariga/Epagri)

NOVIDADES PARA O MERCADO
Pesquisadores vêm avaliando acessos e em breve a Epagri deve lançar um novo cultivar de goiabeira-serrana que promete maior rentabilidade aos produtores, pois será o primeiro a chegar ao mercado devido à precocidade. “É um cultivar muito produtivo, mais doce, de fruto grande, alto rendimento e suculência da polpa”, comemora o coordenador da pesquisa, Leonardo Araujo.

Outro foco da pesquisa está nas técnicas de colheita. Estudos e testes vêm sendo feitos com redes para o uso abaixo das copas das árvores para evitar a queda dos frutos e assim impedir a injúria mecânica. Isso também facilitaria a colheita e poderia diminuir a mão de obra, otimizando o trabalho do produtor. Além da eficiência do método, também está sendo avaliado se o custo será viável ao fruticultor.

Esses são alguns exemplos de estudos conduzidos pela Epagri para estimular o cultivo da goiaba-serrana, ainda recente no Brasil. Grupos de pesquisa trabalham para oferecer tecnologias aos fruticultores para que a cultura seja cada vez mais sustentável e rentável. Pesquisas também vêm sendo feitas para aprofundar o conhecimento sobre manejo da espécie, sanidade, nutrição, fitotecnia, entre outros temas relacionados ao uso da fruta, como a gastronomia ou a farmacologia.

VENDA DE MUDAS
Em 2019 uma chamada pública habilitou duas empresas para comercializar as mudas de goiabeira-serrana. A Epagri ganha royalties sobre essas vendas, cujos valores serão usados para custear novas pesquisas.

Confira: Agromillora Produção e Comércio de Mudas Vegetais – tel. (14) 3654-1137; e Terra Pinus Mudas Florestais – tel. (49) 99912-6346/98438-6749.

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