CLAUDIO SCHAPOCHNIK_Berat/ALBÂNIA
As cidades, mundo afora, muitas vezes são lembradas por estarem associadas a uma palavra ou frase que destaca um aspecto marcante do lugar.
Neste contexto, a palavra janela ganha ressonância procedente da Albânia, país da região dos Bálcãs, no Sul da Europa. O eco reverbera, especificamente, de Berat.
Com uma população pouco acima de 60 mil habitantes, Berat é conhecida como “Cidade das Mil Janelas” ou “Cidade de uma janela sobre a outra”.
Em albanês, o idioma oficial do país, janela grafa-se dritare (singular) e dritaret (plural).


Eu não contei o número de janelas para saber se, de fato, somavam mil destas quando estive em Berat, com meu amigo e jornalista alemão, Jan Kummer, em outubro de 2024. Mas confio no serviço de estatística local.
De fato, as janelas das casas parecem estar “uma sobre a outra”. A imagem ganha força devido ao grande adensamento das residências e dos prédios, de um ou dois andares.
Constatei, também, que as janelas têm uma característica marcante: são retangulares e verticais.


A cidade atrai ainda pela história e beleza natural no entorno. O Centro Histórico, vale destacar, é Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco desde 2005.
Distante cerca de 120 quilômetros ao Sul da capital do país, Tirana, por rodovia, Berat vale uma estada de, pelo menos, duas noites.

EXCELENTE CAFÉ DA MANHÃ
Fiquei hospedado na casa de uma família de albaneses bastante simpática. Até o Centro Histórico, acredito, a distância é de cerca de dois quilômetros.
A família mora na parte de baixo do imóvel. A parte de cima, com quartos, sala e banheiro, eles alugam por meio de uma plataforma e têm, assim, uma renda extra.
Fui atendido pelo casal proprietário e por sua filha; os três pra lá de simpáticos e atenciosos. A comunicação era via um tradutor online.
Como a reserva estava em nome do Jan, a senhora e sua filha diziam ao celular o que queriam, em albanês, e mostravam a tela com a tradução para o alemão.
Além da hospitalidade nota dez dessa família, o grande destaque foi o café da manhã… Que gostooooooso! Mais caseiro, impossível. Imagino que era com os mesmos itens da refeição matinal deles. Detalhe: tudo fresquinho e com especialidades, se não locais, nacionais ou típicas dos Bálcãs. Excelente!


Num dos cafés, o marido da senhora ofereceu uma das bebidas tradicionais de seu país: o raki. É uma aguardente de fruta, geralmente feita de uva, com alto teor alcoólico – podendo chegar a 55%.
Não tenho o hábito de tomar álcool logo pela manhã, mas bebi um shot de raki. O Jan também bebeu.
Foi minha estreia com essa bebida. Não perguntei, mas acredito que era caseiro. Adorei o sabor. Que gostooooooso!

AINDA AS JANELAS
A viagem pela Albânia foi de carro, sendo o Jan motorista – eu não dirijo.
Por duas vezes, o Jan parou o carro nas proximidades, talvez, da principal via da cidade: o Bulevardi Republika. Metade da extensão é um calçadão.
O Bulevardi Republika, como uma verdadeira passarela, é um excelente lugar para caminhar e, sobretudo, observar os albaneses. Há ainda lojas, bares, sorveterias e restaurantes.
Outra dica de caminhada urbana é andar na calçada que beira o rio Osum, que atravessa a cidade.

Por cima do rio, que em outubro tinha pouquíssima água, há duas pontes. Ambas têm ângulos a serem explorados para observação e fotos bem bacanas das janelas das casas.
A ponte Gorica é a mais antiga da cidade. Datada do final do século 18, foi erguida pelo governante otomano Ahmet Kurt Pasha. Possui 129 metros de extensão.
Vale ressaltar que a Albânia ficou sob o domínio do Império Otomano por cerca de 400 anos – até o início do século 20.


A outra ponte, contemporânea, é do tipo estaiada.
A “cara” de Berat, na minha opinião, está no conjunto de casas que foram construídas na encosta do morro onde localiza-se outro ponto crucial – o Castelo de Berat (Kalaja e Beratit, em albanês).

PREGAÇÃO NA MESQUITA E VISITA À CIDADELA
O islamismo e o ateísmo, juntos, dominam a opção religiosa dos albaneses segundo as estatísticas do país.
Praticamente sempre há uma mesquita em toda cidade albanesa. Em Berat, há várias – e também igrejas, sobretudo as de culto ortodoxo.
No Centro Histórico, visitei a Mesquita do Sultão – Xhamia e Mbretit, em albanês. Do último quarto do século 15, o templo recebeu esse nome em honra ao construtor, o sultão otomano Bayezid 2º.
Fui em um dos intervalos das cinco rezas que os muçulmanos praticantes fazem diariamente. O minarete, bonito, não possui uma grande altura.

O salão interno é pequeno. Naquele momento, um funcionário fazia a manutenção do equipamento de som. Nesse local, um albanês se apresentou e iniciou uma conversa. Na verdade, ele fez uma pregação do islamismo para mim e o Jan.
São encontros como esse, inusitados, que a gente leva para sempre: um brasileiro judeu (eu) e um alemão sem religião (Jan) ouvindo um albanês narrar em quase uma hora sobre aspectos da fé muçulmana em italiano – ele morou por anos na Itália. Gostei. Foi bem interessante.
Logo após a parada na mesquita, fiz a longa caminhada que, graças à minha condição de sobrepeso, foi deveras cansativa. Parei duas ou três vezes.
Ao final, o esforço valeu demais: é o caminho que leva moradores e turistas ao Castelo de Berat, também conhecido como Cidadela de Berat. Atração imperdível.



Aberta ao público e sem cobrança de ingresso, a cidadela muralhada reúne lojas, residências e restaurantes; de fato, é um bairro.
A cidadela está aproximadamente a 200 metros de altitude. Lá de cima, as vistas da cidade e do entorno são esplendorosas.
O que também se observa andando por lá são ruínas do outrora passado pré-otomano e otomano. Segundo o site da Unesco, a maior parte das edificações “foi construída no século 13, embora as origens remontem ao século 4 a.C.”.



Imaginando a cidadela como um navio, a proa se debruça sobre o rio Osum no estratégico lugar chamado Tabja – palavra turca para um local construído com finalidades defensivas; no caso trata-se de uma torre fortificada.
O Tabja é um colírio para os olhos em tempos de paz: a vista panorâmica encanta.
Para uma visita “básica” ou para quem tem pouco tempo, portanto, o Centro Histórico e a Cidadela representam Berat muito bem.


Para quem tem mais tempo, sugiro dar uma olhada no site da Agência Nacional de Turismo – órgão oficial do setor do governo albanês. Há outras valiosas dicas.
Adorei a cidade. Simples, agradável, segura e charmosa. Super recomendo.