Mudança de comportamento impulsiona menus sem álcool

DA AGÊNCIA SEBRAE DE NOTÍCIAS

Um bar que não vende bebida alcoólica? Pode parecer estranho, mas está se tornando uma tendência mundial – e brasileira. Para um grupo cada vez maior de pessoas, as reuniões sociais regadas a álcool parecem estar perdendo a graça, especialmente para a geração Z, aqueles nascidos a partir de meados dos anos 1990. As consultorias de tendência e inteligência de mercado apontam que esse é o grupo menos fã de bebedeira, que inclui também os mais novos da geração anterior, chamada de Y ou de millenials (nascidos entre 1980 e 1995). Eles detestam ressaca, dão mais valor à academia do que aos bares e preferem qualidade a quantidade. Para esse público, ser saudável é ser legal, ao contrário da geração anterior, que, quando jovem, considerava o álcool como parte de um estilo de vida descolado.

De acordo com o último levantamento do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa), feito em 2019 e um dos mais completos panoramas sobre o tema, os brasileiros, em geral, estão bebendo menos. O consumo per capita de álcool reduziu 11% entre 2010 e 2016. O País está seguindo uma tendência mundial e em linha com a proposta da Organização Mundial de Saúde (OMS) de reduzir em 10% o consumo nocivo de álcool entre a população até 2025. O órgão estima que 44,5% da população mundial nunca consumiu álcool,lembrando que uma boa parcela da população não ingere álcool por motivos religiosos.

A preocupação com a saúde está entre os motivos que puxam esse movimento de desvalorização do álcool. Os millenials são chamados de “geração burnout” (exaustão), pois atuam mais como freelancers em meio à instabilidade do mercado de trabalho e são extremamente conectados. Esse contexto fez com que o grupo busque mais cuidados com saúde e bem-estar, valorizando atividades físicas, meditação, yoga e, consequentemente, rejeitando o álcool, que não se encaixa nesse estilo de vida.

A geração Z, que veio na sequência, manteve a prioridade na vida saudável e ainda incorporou o apreço pelas bebidas funcionais. Movimento que está sendo acompanhado de perto pela indústria de bebidas, que além de ter começado a fazer campanhas pelo consumo moderado de álcool, incluiu em seu portfólio opções de cerveja sem álcool ou bebidas com ervas e substâncias naturais ligadas ao bem estar e ao combate ao estresse.

A marca norte -americana Kin Euphorics, por exemplo, se vende como “uma nova categoria de bebida noturna, criada para uma conexão consciente”. Seu slogan é “Toda a felicidade, sem álcool” e usa ingredientes como ervas, florais, frutas, sucos e temperos. Já a Recess enlatou água gaseificada com canabidiol, substância extraída da Cannabis, mas sem efeito psicoativo.

CONSUMO CONSCIENTE
Para Julia Caran, da WGSN Mindset, consultoria multinacional de comportamento e consumo, e que tem trabalhado com a indústria de bebidas, a tendência não é necessariamente a abstinência, mas um consumo de álcool mais consciente para conciliar o estilo de vida saudável aos momentos de socialização, e as bebidas funcionais se encaixam muito bem nessa estratégia. “Com o boom da valorização do bem-estar, as bebidas sem álcool ou com baixo teor alcoólico são uma forte tendência, apesar de ainda bastante voltada a um nicho. Mas identifica-se, especialmente nos mais jovens, um movimento de conciliar a socialização e a rotina, planejar suas atividades e não sair do controle”, diz.

Se a indústria está atenta a esse novo comportamento do consumidor, os empreendedores também estão. Há sete anos, o chef Andre Berti (foto acima/ASN) abriu o Jazz Restô e Burguer, com uma carta de bebidas 100% sem álcool. A motivação foi religiosa, mas o pioneirismo coincidiu com o momento e o negócio, que começou em um pequeno imóvel na Vila Mariana, em São Paulo, e hoje ocupa outros cinco ao redor, acabou de ganhar uma segunda unidade.

Nesse período, o faturamento expandiu tanto quanto o espaço. Hoje, o Jazz fatura dez vezes mais do que no ano de abertura, com um histórico de crescimento em torno de 15% ao ano. De acordo com Berti, muitos clientes ainda estranham a falta de álcool, mas ele prefere a vantagem de não ter problemas causados pelo consumo excessivo de bebida alcoólica, como mais sujeira ou episódios de violência. “Pensamos também na saúde. O álcool é a droga lícita mais consumida no mundo e não queremos participar disso”, explica.

Berti diz que a maior dificuldade é encontrar fornecedores. “Não se investe muito nesse tipo de produto, as pessoas não acreditam na demanda”, afirma. O Jazz trabalha com dois grandes produtores nacionais de bebida, duas cervejarias paulistas menores e importadoras que trazem cervejas da Bélgica, da Alemanha e da Espanha. A carta de bebidas tem mais de 60 opções:além das cervejas, há drinques, espumantes, vinhos brancos, tintos e rosés, tudo sem uma gota de álcool.

Para quem está pensando em empreender nesse segmento, a dica de Berti é estudar bem o mercado para direcionar melhor o marketing para o público-alvo. “A principal dificuldade é encontrar esse público, mas ele existe. É preciso buscar e trabalhar seu marketing com eles.”

BEM NA FOTO
As gerações mais jovens lidam muito com sua imagem nas redes sociais. E um dos motivos do desinteresse pelo álcool também passa por aí. “Ninguém quer postar uma selfie com aquela cara alcoolizada ou então fazer alguma postagem alcoolizado e se arrepender depois”, diz a consultora do Sebrae-SP, Karyna Muniz. Pelo contrário, os drinques não alcoólicos ajudam a ficar bem na foto. É o que diz Jairo Gama, que comanda o Bar Obelisco e o Vista São Paulo, que oferece três opções sem álcool nos cardápios. Uma delas responde por cerca de 10% dos drinques pedidos – é o Bijou, que leva purê de maracujá, água de coco e espuma de gengibre. Ele conta que se dedicou para criar drinques não apenas saborosos, mas com uma “roupagem bonita”. “Hoje tudo tem que ser ‘instagramável’. Tem que render uma boa foto”, relata.

Atuando há 17 anos como mixólogo, Gama acredita que o drinque sem álcool é uma “grande sacada” para o empreendedor, já que tem também maior margem de lucro – ao contrário, por exemplo, dos drinques à base de gin, a bebida do momento. Para Gama, porém, é preciso investir em drinque bom de verdade. No passado, lembra, os drinques não alcoólicos eram menosprezados pelos frequentadores e pelos próprios bartenders, que, em geral, ofereciam opções com frutas e cheias de leite condensado. “O paladar do brasileiro mudou. Portanto, o mixólogo tem que ser criativo no sabor e na apresentação”, recomenda.

Responsável pelo bar do Sub Astor, em São Paulo, Fábio La Pietra reforça a recomendação, já que o consumidor está mais exigente. “As pessoas têm buscado mais sabor e percebido que não precisam de álcool para ter essa experiência de coquetel bar. Muitas vezes vale explorar um ingrediente local, por exemplo.” No Sub Astor, são duas opções não alcoólicas entre as 12 ofertas de drinques. Como dica de precificação, Fábio recomenda cobrar pelo menos a metade do que se cobraria pela versão alcoólica.

Karyna Muniz também orienta que o bar ou restaurante ofereça um cardápio de comida que harmonize com os drinques sem álcool. “O bar tem que conciliar com a cozinha, isso faz com que o tíquete médio aumente”, diz. Além disso, ela recomenda estudar bem os ingredientes e suas funcionalidades e investir em insumos de qualidade. “Se for explorar frutas ou hortaliças, valorize a estação, a brasilidade, a inovação do mix de produtos, respeitando a sazonalidade, para ter melhor controle do custo fora de época. A ideia é superar cada vez mais as expectativas dessa experiência”.

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